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CARTA ABERTA AOS CANDIDATOS(AS) A PREFEITOS(AS) E VEREADORES(AS)

MAIS DE UM MILHÃO DE IDOSOS VIVEM EM SANTA CATARINA![1]

 

Muito embora o Coronavírus tenha “roubado a cena” neste ano de 2020, não podemos subestimar o momento político importante que se aproxima: as eleições municipais.

E, se nas últimas décadas, estudiosos da área do envelhecimento e profissionais que atuam nas políticas públicas, de todo o país já vinham chamando a atenção para o acelerado crescimento da população idosa e da consequente falta de políticas públicas adequadas a esta nova realidade populacional, a atual Pandemia “escancarou” essa questão: as pessoas estão vivendo muito mais, contudo poucas têm à disposição serviços públicos que possam lhes garantir qualidade de vida digna. Com o envelhecimento, as pessoas, em algum momento, acabam por apresentar alguma fragilidade biopsicossocial, o que exige da sociedade em geral, mas especialmente dos poderes constituídos, instrumentos de cuidado integral.

É no Município que o idoso vive. Assim, o poder público municipal deve ser o primeiro e o mais próximo garantidor dos direitos da pessoa idosa. É nos gestores municipais que deságuam suas necessidades, demandando soluções por meio de políticas públicas integradas e adequadas àquele território, mesmo que as referidas competências sejam atribuídas de igual forma às demais instâncias: União e Estado.

Diante disso, a Associação Nacional de Gerontologia do Estado de Santa Catarina – ANG SC[2], que tem como um de seus objetivos assessorar e articular com diferentes órgãos do governo estadual e municipais programas dirigidos à pessoa idosa e que envolvam políticas de direitos (em especial, saúde, assistência social, segurança, emprego, salário, moradia, educação, cultura, esporte, lazer, etnia, comunicação, participação política), dirige-se a V.Sa. para propor que seu programa de governo integre questões importantes para ELEITORES dessa faixa etária, tais como:

  • Criação do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa – CMDPI (onde ainda não existir) e garantia de seu funcionamento como órgão deliberativo, paritário e independente, nos termos da Lei, respeitando suas competências e envolvendo-o ativamente no planejamento das políticas públicas de atendimento aos idosos.

 

  • Criação do Fundo Municipal do Idoso – FMI, gerido pelo respectivo CMDPI, nos termos da Lei, para captação de recursos e financiamento de projetos especiais – além daqueles que competem ao Município – em benefício da população idosa.

 

  • Garantia de inclusão, de programas de atendimento à população idosa no planejamento, e respectivo orçamento, de TODAS as pastas municipais.

 

  • Prestação de serviços de abrigamento de idosos vulneráveis, como a garantia de Instituições de Longa Permanência – ILPIs (onde a demanda justificar), Casas Lares e/ou Serviço de Famílias Acolhedoras. Destacamos que as ILPIs, podem ser regionais, as quais através de Termo de Colaboração atendem os Municípios, garantindo a convivência familiar e comunitária.

 

  • Implantação de Centros-dia, para aquele idoso que possui vínculo com a família, no entanto precisa de cuidados nos momentos em que a família está no trabalho; centros de convivência, para idosos que possuem autonomia nas atividades diárias, para fortalecer vínculos familiares e comunitários.

 

  • Criação de programas continuados de condicionamento físico, esporte, lazer e cultura.

 

  • Proposição de uma “Política de Educação e Envelhecimento” que compreenda a inclusão em disciplinas dos currículos do Ensino Fundamental da temática “Educação para o Envelhecimento” e a criação de cursos em geral para as pessoas já idosas, adequados às necessidades locais (letramento básico, ensino fundamental complementar e outros), com destaque especial às tecnologias de informática (celular e internet), hoje indispensáveis ao pleno exercício da cidadania das pessoas idosas.

 

  • Organização dos serviços do SUS de forma a garantir o acesso integral e prioritário aos idosos, bem como o atendimento domiciliar, sempre que necessário.

 

  • Elaboração de projetos especiais para captação de recursos governamentais e/ou privados, bem como o estabelecimento de parcerias público/privadas para garantir o fornecimento de medicamentos, fraldas geriátricas, órteses e próteses, naqueles momentos em que os recursos do SUS sejam insuficientes.

 

  • Projetos diversos (de arquitetura, ruas, praças, calçadas, banheiros públicos limpos e gratuitos, transporte público e mobilidade em geral) para tornar a cidade mais acessível e amigável aos idosos, o que contribui para sua independência, autoestima e dignidade.

 

  • Compromisso com as deliberações da última Conferência Municipal e/ou Regional dos Direitos da Pessoa Idosa, incluindo-as no plano de governo, e garantia do financiamento das Conferências seguintes, nas datas oportunas.

 

Nossa intenção, neste momento, foi apenas apontar, em linhas gerais, possíveis necessidades comuns aos idosos dos municípios catarinenses, as quais sugerimos incluir em suas propostas de campanha. Contudo, após sua eleição, colocamo-nos à disposição para auxiliar na construção de uma Política Municipal Integrada de Garantia dos Direitos das Pessoas Idosas, para seu Município.

 

Atenciosamente,

Associação Nacional de Gerontologia de Santa Catarina – ANG SC

 


[1]http://apps.tresc.jus.br/site/fileadmin/arquivos/eleicoes/estatistica_eleitoral/estat_offline/PerfilEleitor/ResumoFE/PerfilResumoFE010820.htm

[2]  CNPJ/MF sob o número 07.793.560/0001-90 – entidade civil, de fins não econômicos, com personalidade jurídica de direito privado e objetivos de natureza técnico-científica, com ação em todo o Estado de Santa Catarina,  e que  tem por finalidade contribuir para a melhoria das condições de vida da população idosa catarinense.

Artigos de Associados

Covid-19, a Economia e a Morte de Idosos

Maria Joana Zucco

 

Li, recentemente um interessante trabalho de ANA AMÉLIA CAMARANO (IPEA), intitulado “Os dependentes da renda dos idosos e o coronavírus: órfãos ou novos pobres?” (CAMARANO, 2020).

Segundo a pesquisadora, 73,8% das mortes registradas por Covid-19, no Brasil, até 1o de julho de 2020, ocorreram com indivíduos de 60 anos ou mais – idosos, portanto. Na sequência, Camarano demonstra estatisticamente o impacto que tais mortes criarão na renda de uma grande proporção das famílias brasileiras, o que desmistifica a visão tradicional do idoso dependente, do idoso como peso familiar e social. Pelo contrário, a pesquisa mostra a importância da renda do idoso para as famílias, e em que escala o idoso ainda é o maior provedor da economia familiar, seja pelo que recebe como aposentadoria e/ou pensão, seja como renda de seu trabalho.

O trabalho é interessante e merece uma leitura cuidadosa.

Concordo inteiramente com a questão retratada pela pesquisadora. Mas gostaria de apontar um outro viés dessa mesma questão. Alguns membros do governo, por sua inercia diante do problema, parecem pensar que as mortes dos idosos representarão um lucro para a Previdência… Contudo, esquecem que este lucro se reverte em empobrecimento das famílias, o que demandará mais recursos em políticas sociais… E do ponto de vista do “bolso” do governo (economicamente), acaba tudo no mesmo. Porém, sob a ótica política (ou politiqueira) sabemos que, quando dependente da Assistência Social, a população se torna muito mais vulnerável e à mercê do governo. Talvez isso seja interessante para quem quer ganhar eleições.

Outro ponto a ser considerado vai além do aspecto econômico. Trata-se do retrocesso ao avanço científico, tecnológico, humano e social do país e do mundo.

Durante as últimas décadas, falamos muito no aumento da longevidade humana: como um ganho e como um desafio. É inquestionável que nós, brasileiros adultos de 2020, teríamos, em tese, uns 30 anos de expectativa de vida a mais que nossos avós! O mundo lutou muito contra a mortalidade infantil, cientistas trabalharam diuturnamente e avançaram sobretudo na medicina, em muitas outras áreas e na tecnologia de comunicação desses novos conhecimentos, o que, direta ou transversalmente, propiciou atingir esta longevidade. Governos mais democráticos e a implementação de políticas públicas sociais, que permitiram melhores condições de vida aos mais vulneráveis, também, em muito colaboraram.

Mas veio a Pandemia e com ela, pelo menos para aproximadamente 78 mil idosos brasileiros (até hoje), esta longevidade foi encolhida em 5, 10 ou até 30 anos… (“O que são 78 mil pessoas numa população de 215 milhões?” pensarão logo alguns…).

São 78.000 vidas abortadas, com seus planos, seus sonhos, seus amores, suas famílias… São 78 mil vidas, dentre as quais poderia ser a sua, a minha, a de seu pai, sua mãe, sua irmã, ou a de outras tantas pessoas que você ama. Os números deixam de ser frios quando assumem rostos, histórias.

E nas situações de escassez de recursos de saúde – humanos e materiais –, a morte dos idosos é uma realidade ainda maior, por serem mais vulneráveis e requererem cuidados nem sempre disponíveis. Uma tragédia anunciada, um verdadeiro genocídio!

Se cada brasileiro não assumir, com responsabilidade, o compromisso com a precaução e a prevenção, continuaremos tendo muitos óbitos, 73% dos quais seremos nós, as pessoas idosas.

              Fonte imagem: Freepik.com

Referências bibliográficas:

CAMARANO, A. A. Os Dependentes da Renda dos Idosos E o Coronavírus: Órfãos ou Novos Pobres? Nota Técnica n° 81 IPEA, 2020. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/200724_nt_disoc_n_81_web.pdf . Acesso em 11/08/2020.


Sobre a autora:

Maria Joana Zucco

Advogada (30.863 OAB-SC)

Associada da ANG SC e conselheira (pela ANG SC) do Conselho Municipal do Idoso de Florianópolis.

E-mail: [email protected]

 

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Artigos de Associados

A Interface da saúde bucal e saúde sistêmica dos idosos

A Interface da saúde bucal e saúde sistêmica dos idosos

Inessa Solek Teixeira

Diante da saúde frágil dos idosos é importante que a saúde bucal esteja em dia. Uma saúde bucal deficiente, nesta faixa etária, pode ser vista como uma diminuição da função mastigatória resultante de dentes cariados, de doença periodontal (dentes amolecidos), de próteses inadequadas ou ausência delas, higiene bucal negligente, presença de lesões bucais, dor, inflamação ou infecções.
Uma cárie pode se tornar uma porta de entrada de bactérias para a corrente sanguínea. Quando uma cárie torna-se mais profunda a ponto de comprometer a polpa do dente, ou seja, a parte interna do dente onde se encontram os vasos e nervos, as bactérias ali instaladas poderão percorrer a corrente sanguínea e acarretar danos a vários órgãos do corpo.
As Bactérias que percorrerem a corrente sanguínea e forem para o coração podem causar endocardite bacteriana, ao se dirigirem para o cérebro podem causar meningite, para o pulmão, pneumonia, para o rim, infecção urinária, sendo que as bactérias oriundas da boca podem provocar problemas articulares quando se alojarem nas articulações. Estudos comprovam que tais situações se verificam mais facilmente em pacientes com imunidade baixa, principalmente os idosos.
Ainda, o tártaro, que nada mais é do que a placa bacteriana calcificada, resultante do resto de alimento que se depositou no dente devido a má escovação. Quando o tártaro se forma, provoca inflamação na gengiva deixando-a inchada e sangrando. Devido a proximidade do tártaro à corrente sanguínea, as bactérias podem facilmente percorrer o corpo e se depositar em algum órgão, provocando desta forma infecções sistêmicas.
Com isso, sempre que um paciente trata uma infecção urinária com antibiótico e não remove as infecções da boca, que pode ser o foco inicial, ele está sujeito a ter infecções urinárias recorrentes, pois o tártaro é um depósito de bactérias escondidas onde o antibiótico não tem acesso.
Muitos idosos, com a diminuição da sua capacidade funcional resultante de déficits neurológicos e motores apresentam dificuldades de realizar uma higiene bucal adequada. Nesses casos, torna-se importante que os familiares e cuidadores supram essa necessidade, auxiliando os idosos na escovação dentária ou limpeza das próteses, evitando o acúmulo de restos de alimentos na boca. Pois, esse acúmulo de alimento poderá desencadear várias complicações que afetarão não só a boca, mas a saúde geral do idoso.

Sendo assim, uma saúde bucal satisfatória é essencial para uma nutrição variada, a qual possibilitará a manutenção da saúde geral e de uma melhor qualidade de vida, para uma autoestima positiva e uma vida social saudável.
A saúde começa pela boca e não deve ser negligenciada em nenhuma fase da vida!

 

Fonte: http://salomaochris.blogspot.com.br/2012/04/saude-bucal-x-saude-sistemica.html

 

Referências bibliográficas:
CARVALHO, I. M. M. Avaliação Sócio Odontológica de 300 pessoas idosas. 2000.190f.Tese de doutorado. Faculdade de São Paulo, Bauru, SP.
DIAS, L.Z.S.; Doença periodontal como fator de risco para doença cardiovascular. Rio de Janeiro; s.n; 2002. Disponível em: http://ufpe.br.
MOJON, P. Oral health and respiratory infection. Canadian Dental Association, Canadá, v.68, n.6, p 340-345, 2002.
SCANNAPIECO, F.A.; HO, A.W. Potential Associations between chronic respiratory disease and periodontal disease: analysis of national health and nutrition examination survey III. Journal of Periodontology, Estados Unidos, v. 72, n.1, p. 50-56, Jan. 2001.


Sobre a autora:
Inessa Solek Teixeira
Cirurgiã Dentista – CRO-SC: 5499 Pós-graduada em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. Dentista em Casas Geriátricas da Grande Florianópolis. Protesista do Centro de Especialidades Odontológicas da Prefeitura Municipal de Tijucas-SC. Associada da ANG SC. E-mail: [email protected]

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Artigos de Associados

 Enfrentamento da Violência Contra Idosos

Maria Joana Barni Zucco

O Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa (15 de junho) foi instituído pela ONU, em 2006, com o objetivo de discutir publicamente este tema, como forma de prevenção e de enfrentamento desse mal social.

Qualquer ação ou omissão que fere o bem-estar físico e emocional da pessoa idosa, não importa se praticada uma ou muitas vezes, em lugar público ou privado, é uma forma de violência, uma agressão aos direitos do idoso e, portanto, passível de configurar um crime.

Cumpre lembrar que o Estatuto do Idoso não apenas “regula os direitos especiais das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos”; ele define ações e omissões e as considera crimes de ação penal pública incondicionada. Ou seja: o titular de uma ação judicial de violência contra idoso é o próprio Estado, no seu papel de tutelar interesses sociais e manter a ordem pública. Mesmo que a vítima perdoe seu agressor ou não queira que a agressão seja denunciada, uma vez conhecida pelo Ministério Público, ela deve considerada.

Lamentavelmente, são muitas as formas de violência contra idosos. A negligência é a campeã, mas há diversos outros tipos de agressões, como a violência física, sexual, abuso financeiro e patrimonial, o abandono, a discriminação social… E, obviamente, em todas as suas modalidades, ocorre também a violência psicológica, pois, qualquer que seja a violência contra o idoso, é agredido também o seu estado emocional.

Constata-se que a violência contra idosos está muito difundida, mas é de difícil combate penal, pois, com frequência, ela ocorre dentro dos próprios lares. Por isso, a vítima não denuncia. Ninguém denuncia! Aliás, com frequência, os agressores sequer assumem que estejam cometendo uma violência… Não raro, os agressores encaram como NORMAIS suas atitudes contra o bem-estar dos idosos.

Diante dessas constatações, estratégias de enfrentamento mais amplas precisam ser traçadas. Ainda que a lei defina como crime essas violências e que a justiça possa puni-las, as crescentes estatísticas demonstram a insuficiência da estratégia punitiva.

Parece claro ser prioritário, dar visibilidade à situação real da violência contra o idoso. Ampliar a consciência (local e mundial) política e social da sua existência. DESNATURALIZAR a sua existência. Para tanto, é preciso que os direitos das pessoas idosas sejam amplamente conhecidos, por toda a sociedade, mas, principalmente, por elas mesmas, para saberem se defender. Além disso, cumpre que sejam conhecidas e divulgadas as penalidades aplicáveis a quem descumprir tais direitos.

Paralelamente, são necessárias ações preventivas que podem ser alcançadas, inicialmente, pela educação intergeracional, com a inclusão de questões sobre o processo de envelhecimento e sobre os direitos dos idosos nos conteúdos escolares. Essa prevenção poderá ocorrer, também, pelo fortalecimento de políticas públicas de orientação e apoio a famílias que abrigam idosos, pela formação de profissionais de saúde, assistência, cuidadores em geral, dentre outras profissões, com formação sobre o fenômeno do envelhecimento e com habilidades para lidar com as limitações dos idosos. Cabe, ainda, investir no cuidado da saúde física, mental e na autonomia da pessoa que envelhece, pois, quanto menor sua dependência, maior sua resiliência e capacidade de se contrapor a violações de seus direitos. Por fim, como parte da prevenção à violência e do fortalecimento do idoso como sujeito de direitos, há também a necessidade de mudança do paradigma familiar que, historicamente, aceita o envelhecimento como algo inexorável, implacável, incomplacente, contra o qual nada se pode fazer… Conhecida e aceita a possibilidade de uma vida longeva, é possível, sim, preparar-se para ela, por meio da educação e de um plano familiar para o envelhecimento.

Por último, sim, as ações corretivas, a aplicação e punição da lei. E para tanto é preciso romper o silêncio. Denunciar toda e qualquer violência ou ameaça de violência contra o idoso. A lei impõe a todos nós, cidadãos, o dever de zelar pela dignidade do idoso, prevenindo e denunciando violações de seus direitos.

Fonte imagem: Freepik.com

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Sobre a autora:

 Maria Joana Barni Zucco

Advogada (OAB/SC 30.863) membro da Comissão do Direito do Idoso da OAB/SC e Conselheira Titular no Conselho Estadual do Idoso – CEI/SC.

E-mail: [email protected]

Artigos de Associados

Reflexões Sobre o Atendimento aos Idosos na Atenção Básica de Saúde

Lilian Suelen de Oliveira Cunha

O processo de transição demográfica em que o Brasil vivencia atualmente impacta diretamente no perfil epidemiológico da população. A elevada prevalência de doenças crônicas não transmissíveis e ao mesmo tempo a persistência no país de doenças transmissíveis conforme expõe Veras (2009) traz uma série de questões cruciais para gestores e pesquisadores dos sistemas de saúde, com repercussões para toda a sociedade, especialmente em um contexto de acentuada desigualdade social, pobreza e fragilidade das instituições.

Neste sentido, o envelhecimento populacional provoca grandes desafios à Saúde Pública, visto as especificidades das necessidades de serviços e cuidados que essa faixa etária necessita. Esse processo de envelhecimento demanda mudanças na família, na comunidade e no contexto dos serviços de saúde.  Dentre essas mudanças, as novas disposições dos arranjos familiares requer um olhar mais atento em que se observa o aumento da proporção de idosos morando sozinhos e/ou dividindo espaço com parentes ou outras pessoas da sua geração.

Destaca-se que na condição de idoso morando sozinho amplia-se a necessidade do cuidado de profissionais na Atenção Primária à Saúde. Estudos mostram que existe associação positiva entre as relações interpessoais e o estado de saúde, indicando que a interação social diminui a associação entre a carga de doenças e sintomas depressivos (ROMERO, 2002). Deste modo, o apoio social reduz a relação entre comprometimento funcional e sintomas depressivos (HATFIELD et al., 2013). Ainda que morar sozinho seja um sinal de independência para as atividades de vida diária, pessoas idosas estão mais propensos a receber cuidado formal, comparativamente àqueles que residem com outras pessoas (CAMARGOS et al., 2011), assim morar sozinho pode-se tornar um indicador de vulnerabilidade.

Nesta perspectiva, acredita-se na ideia do planejamento como um modo racional de apoio à viabilidade de políticas públicas para a população idosa, uma vez que a saúde, como um setor público da sociedade, incorpora e emprega a lógica do planejamento para seus serviços e para a organização do seu próprio sistema de saúde. O planejamento constitui uma possibilidade de aproximação real às necessidades e demandas da população, além de ser uma forma de conjugar aquilo que realmente a população necessita para manutenção de uma vida equilibrada e autônoma na saúde com aquilo que os serviços de saúde ofertam (ABRAHÃO, 2007).

Nesta lógica, o tipo de problema determina o método de planejamento a ser empregado. Assim, no cotidiano das equipes de estratégia de saúde da família, os problemas são de diferentes ordens e exige ações estratégicas para o seu enfretamento. Entre os casos amplos e complexos para as equipes de saúde faz parte a situação de saúde de pessoas idosas. Caberá aos profissionais de saúde, em todos os níveis, de forma intersetorial e multiprofissional, conforme suas competências, prover os meios para alcançar o propósito do planejamento em saúde dos idosos.

Segundo o Ministério da Saúde, por meio da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), estabelecida pela Portaria n° 2.558/2016, e considerando a necessidade de que o setor de saúde disponha de uma política atualizada relacionada à saúde dessa população. Com isso, direciona por intermédio de diretrizes: a promoção do envelhecimento ativo e saudável; às ações intersetoriais, visando à integralidade da atenção; provimento de recursos capazes de assegurar a qualidade da atenção à saúde da pessoa idosa; estímulo à participação e fortalecimento do controle social; formação e educação permanente dos profissionais de saúde do sistema único de saúde (SUS), divulgação e informação sobre a PNSPI para profissionais de saúde, gestores e usuário; promoção de cooperação nacional e internacional das experiências na atenção à saúde da pessoa idosa; e apoio ao desenvolvimento de estudos e pesquisas.

Um novo olhar, de cuidado e respeito, deve ser direcionado aos idosos, dando-lhes dignidade. Os profissionais de saúde, em especial os inseridos na Atenção Básica, exercem papel fundamental nessa mudança (MONIER; SOARES, 2016). Corroborando com as autoras ler-se no documento norteador Programa Acompanhante de idosos São Paulo (2012) cabe aos gestores e profissionais da saúde de todos os níveis de atenção do SUS promover a qualidade de vida da pessoa idosa, bem como preservar sua autonomia e independência funcional.

Entende-se que as equipes de saúde na Atenção Básica têm a oportunidade de conhecer a realidade dos indivíduos em seu contexto social e intervir nela, ou seja, são importantes instrumentos na promoção da saúde (CARDOSO et al., 2011). Então, reflete-se de que forma essas equipes podem desenvolver seu trabalho para um idoso morando sozinho? Ampliar o vínculo entre o usuário e a equipe (Estratégia Saúde da Família e Núcleo de Apoio da Saúde da Família) por meio de visitas domiciliares, envolver a comunidade e buscar por familiares no cuidado deste idoso, acolher este idoso na rede de serviços de suporte social, possibilitando um acompanhamento humanizado de sua condição de vida e saúde.

A assistência à saúde da pessoa idosa deve ser baseada na continuidade, em um cuidado integral, uma vez que o atendimento médico individual esporádico e restrito somente às complicações não tem atendido às necessidades dessa população. Para atingir a meta da continuidade da assistência, os profissionais de saúde precisam, portanto, desvencilhar-se do padrão de cuidado isolado, fragmentado, paternalista e autoritário; renovando o método de trabalho e adotando como filosofia o trabalho em equipe interdisciplinar, com visão de totalidade do ser humano, de forma que a pessoa idosa seja vista como um todo, considerando sua história de vida e deu contexto social (MARIN et al., 2010).

A integralidade ampliada à pessoa idosa permeia a articulação do cuidado de cada profissional, de cada equipe e dos gestores. A construção da rede de atenção é fundamental para esse cuidado integral, universal e equânime. Observa-se que mesmo com todas as políticas, leis e ações voltadas para a população idosa, a atenção ainda é incipiente. Portanto, os profissionais da equipe de saúde da família devem estar atentos à mudança do perfil populacional da sua área de abrangência e estabelecer vínculo de forma a garantir uma atenção integral e contínua a esta crescente população.

Fonte imagem: Freepik.com

 

Referências bibliográficas:

ABRAHÃO, A.L. Notas sobre o planejamento em saúde. In.: MATTA, G.C. Políticas de saúde: organização e operacionalização do sistema único de saúde./ Organizado por Gustavo Corrêa Matta e Ana Lúcia de Moura Pontes. Rio de Janeiro: EPSJV / Fiocruz, 2007.

CAMARGOS, M. C. S.; RODRIGUES, R.N.; MACHADO, C.J. Idoso, família e domicílio: uma revisão narrativa sobre a decisão de morar sozinho. Revista Brasileira de Estudos de População, Rio de Janeiro, v. 28, p. 217-30, jan./jun. 2011.

CARDOSO, A.F.et al. Protocolo de atenção à saúde do idoso. Tubarão: Copiart, 2011. 128p.

HATFIELD, J.P.: HIRSCH, J.K.: LYNESS, J.M. Functional impairment, illness burden, and depressive symptoms in older adults: does type of social relationship matter? Int J Geriatr Psychiatry [internet], (28):190-98. Available from: http://onlinelibra ry.wiley.com/doi/10.1002/gps.3808/epdf. 2013

MARIN, M.J.S; et al. Características sócio-demográficas do atendimento ao idoso após alta hospitalar na estratégia da saúde de Família. Rev. esc. Enferm. USP. 2010.

MONIER, E.B.; SOARES, R.R. Saúde do Idoso e a saúde da Família. Caderno de Saúde da Família. São Luís. Universidade Federal do Maranhão. UMA-SUS/UFMA, 2016.

ROMERO, D. E. Diferenciais de gênero no impacto do arranjo familiar no status de saúde dos idosos brasileiros. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 7, n. 4, p. 777-94, 2002.

VERAS, R. Envelhecimento populacional contemporâneo: demandas, desafios e inovações. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 43, n.3, p. 548-554, 2009.


Sobre a autora:

Lilian Suelen de Oliveira Cunha

Profissional de Educação Física e com Especialização em Residência Multiprofissional em Saúde da Família pela Universidade Federal de Santa Catarina.

E-mail: [email protected]

 

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Artigos de Associados

O desafio da realização da vida no envelhecimento

2.3-O DESAFIO DA REALIZAÇÃO DA VIDA NO ENVELHECIMENTO

Nelson Frederico Seiffert

No primeiro plano de uma realização exitosa da vida em idosos situa-se o desafio de lidar com perdas nos diferentes aspectos de competências funcionais, tanto da saúde corporal como cognitiva. Modelos de configuração da vida em idades avançadas precisam incluir processos de controle das perdas. Resultados de pesquisas indicam que a imposição de objetivos pessoais desempenha um importante papel e que a escolha de objetivos pessoais (seleção), o esforço em melhorar e perseguir objetivos (otimização) e a substituição de perdas (compensação) conduzem a um envelhecimento bem-sucedido.
Uma definição clara de novos objetivos pessoais para substituir e condicionar perdas, com um foco centrado sobre o processo de condução da vida, em vez de focar apenas sobre a expectativa de resultados, pode ajudar a evitar novas perdas em épocas futuras (Freund & Hennecke 2012).

2.3.1-Configuração da vida em idade avançada

Em idade avançada ocorre numerosas modificações, as quais representam um desafio para o suporte das condições de vida. Estas modificações ocorrem em grande parte por perdas no processo de desconstrução somática, como perdas da funcionalidade corporal, perdas da fluidez da inteligência e da capacidade da memória. No entanto, estas perdas não são uma regra geral para todas as pessoas, muitas das quais apresentam maior estabilidade funcional em idades avançadas, como por exemplo, no âmbito individual da fala e da capacidade cognitiva.No campo individual, em idades avançadas, podem ocorrer inclusive ganhos, como por exemplo, maior satisfação pessoal através do incremento de contatos sociais. No caso da aposentadoria ocorrem efeitos de perdas e ganhos. Por um lado, a aposentadoria está ligada a perdas de contatos com colegas de trabalho e de uma estrutura diária baseada em uma rotina estável. Por outro lado, a aposentadoria oferece a abertura de novas possibilidades através da liberdade de utilização do tempo livre, como a realização de passeios e viagens, o desenvolvimento de hobbies, prática de esportes, entre outras. O tempo após a aposentadoria traz consigo um grande potencial para incrementar ações otimizadas que ofereçam suporte a vida de pessoas idosas.
As modificações individuais que surgem em idades avançadas, representadas por perdas crescentes de habilidades corporais e decorrentes de normas sociais ou de expectativas para esta fase da vida, impõe desafios especiais para a sustentação da qualidade de vida de pessoas que envelhecem. Por esta razão, assumem elevada relevância os processos que atuam sobre a forma de como lidar com as perdas que atingem o envelhecimento.
Diversos estudos e pesquisas propuseram modelos que oferecem orientações de apoio ao envelhecimento, os quais possibilitam administrar modificações e manipular recursos de saúde que se alteram com a idade. A diferença central entre estes modelos situa-se no foco, que pode ser direcionado a uma abordagem proativa, reativa ou pela adoção de controles psicológicos. O modelo de Seleção, Otimização e Compensação (SOC) coloca na formulação de sua teoria de aplicação, prioritariamente, processos proativos e motivacionais.
O modelo da Seleção, Otimização, Compensação – SOC, proposto por Baltes & Baltes (1990) citado por Freund & Hennecke, (2012) postula que o desenvolvimento exitoso do envelhecimento pode ser definido como a maximização simultânea de ganhos de desenvolvimento pessoal e a minimização de perdas. Estas podem ser promovidas através da ação conjunta da seleção de objetivos, da otimização de fatores de desempenho e na compensação de inabilitações funcionais, adoção de estratégias de comportamento, auto regulação e uso de recursos de apoio funcional. O modelo estabelece que a persistência em alcançar objetivos pessoais é o princípio fundamental de suporte a uma vida exitosa no envelhecimento.
A Seleção é definida como o desenvolvimento de escolhas, priorização e contextualização de objetivos (a caracterização de objetivos individuais dentro de seu contexto pessoal de vida), bem como o comprometimento com os objetivos escolhidos.
A seleção exitosa indica que a escolha de objetivos está baseada no pressuposto de que ocorre um leque de alternativas que podem ser introduzidas no processo de envelhecimento para a melhora do desempenho físico e cognitivo individual. O processo de seleção leva o foco a um certo número de possibilidades limitadas que sejam realizáveis pelos indivíduos, e de um modo geral, idosos em idades avançadas estabelecem e conduzem apenas um pequeno número de objetivos. Tal abordagem conduz mais realisticamente a um desempenho exitoso destes objetivos na superação de desabilidades e permite conduzir melhor o dia a dia, quando comparado com pessoas que se conformam com os fatos que os afetam ou deixam-se conduzir pelos acontecimentos, aceitando as perdas.
A otimização orienta-se sobre a persistência na melhoria de objetivos, os quais buscam um ganho de desenvolvimento pessoal. Para isto conta a aquisição e ganho de novas habilidades, o reforço de recursos pessoais, o treinamento de habilidades, a orquestração de habilidades e o investimento de tempo com foco no alcance de objetivos claramente estabelecidos. Os processos de otimização conduzem a elevação ou manutenção de níveis de funcionalidade mais elevados.
Pelo fato de que as perdas se acentuam no envelhecimento o processo de compensação apresenta uma elevada importância. Compensação significa a inclusão de meios para atuar no controle ou substituir perdas, como por exemplo no uso de cadeira de rodas quando o aparelho locomotor apresenta restrições de mobilidade.
Estratégias típicas de compensação são a substituição de habilidades perdidas através da aquisição de novas habilidades, o uso de recursos não utilizados ou a inclusão de suporte através de outra pessoa.
Na administração de modificações no estado de saúde causadas por perdas funcionais, os procedimentos adotados no modelo SOC estão ligados ao planejamento de manutenção da saúde. A aplicação diária de seus princípios possibilita a reabilitação em pessoas, mesmo em idades mais avançadas. Na prática de intervenção deveria estar incorporado o treinamento sobre o uso de estratégias de suporte e proteção a perdas por inabilitações corporais e cognitivas. Os resultados demonstram que na adaptação de objetivos de manutenção da saúde, após a incidência de restrições físicas, a introdução de recursos de compensação pode minimizar o efeito de perdas.
Enquanto que, em idosos jovens a prioridade é o acúmulo de recursos, de facilidades, da otimização na formação educacional, das finanças, da interação familiar, do uso do tempo livre, em idades mais avançadas, as pessoas passam a ser confrontadas com perdas de motivação, da mobilidade e da capacidade cognitiva, havendo necessidade da adoção de medidas que estimulem a manutenção do nível funcional. Não apenas elevar o nível de motivação para evitar agravamento de perdas, mas também perseguir objetivos ligados a valores subjetivos de bem-estar.
Em idosos com idades avançadas os objetivos buscam medidas que possam reduzir perdas funcionais, enquanto que em adultos jovens os objetivos buscam alcançar níveis elevados de desempenho funcional corporal e cognitivo.
A adoção de medidas de suporte para a realização da vida em idades avançadas não depende apenas do domínio do controle exitoso da evolução das perdas, mas também na configuração da própria vida, através do estabelecimento de objetivos pessoais capazes de ser perseguidos. Ao longo do curso de vida é necessária uma orquestração de estratégias que previnam o agravamento de perdas e possam elevar o desenvolvimento de ganhos.
Na prática, parece que a auto regulação para perseguir objetivos pessoais descortina um campo de atuação no qual ainda é possível que sejam obtidos ganhos pessoais. No caso da nutrição e de dietas para emagrecimento, por exemplo, idosos conseguem bons resultados. Outros resultados de auto regulação indicam a importância da imposição de objetivos na regulação emocional que causam efeitos negativos e no reforço da manutenção de efeitos positivos. Os resultados indicam também que a auto regulação é um processo que pode ser treinado através de intervenções objetivas, e que é possível o seu desenvolvimento, mesmo em idades avançadas (Freund & Hennecke, 2012).

2.3.2-Gestão da multimorbidade e doenças crônicas

Em estágios mais avançados do envelhecimento os indivíduos estão sujeitos a sofrer a incidência de doenças decorrentes da multimorbidade e de doenças crônicas. As pessoas são atingidas simultaneamente por diversas doenças, nas quais não há possibilidade de uma cura definitiva, o que impõe modificações orgânicas e psíquicas e que exigem uma nova adaptação do modo de vida. Nesta etapa a tarefa de gestão das inaptidões decorrentes da doença requer uma forte cooperação entre o doente e as pessoas que irão oferecer apoio e tratamento.
As enfermidades que ocorrem no envelhecimento são influenciadas por recursos pessoais dos indivíduos, por terapias desenvolvidas a partir do conhecimento das características das doenças, por intervenções terapêuticas e pelo apoio disponível no ambiente social do idoso. Em pessoas com idades mais avançadas os recursos cognitivos tendem a sofrer regressão. Esta condição pode influenciar o desenvolvimento de um tratamento efetivo, pela dificuldade de obter informações através do doente para a caracterização das diferentes causas de inabilitações que o atingem e o desenvolvimento da terapia adequada.
Em idades mais avançadas as doenças que afetam os indivíduos apresentam características especiais de multimorbidade e ser de caráter crônico. A morbidade manifesta-se com grande probabilidade através de diversas enfermidades simultâneas. No grupo de pessoas com 70 anos ou mais, o número de indivíduos que são afetados por cinco ou mais doenças chega a 30%, e com isto, também se eleva o número de pessoas que passam a tomar um maior número de medicamentos. Estas enfermidades manifestam-se como doenças crônicas, caracterizam-se por sua longa duração e não oferecerem possibilidades de cura.
A gestão de doenças crônicas e das limitações decorrentes de sua incidência está centrada fundamentalmente no manejo conjunto de aspectos subjetivos da vida individual e dos efeitos resultantes que sobrecarregam a pessoa através das restrições no uso dos recursos corporais e cognitivos.
Para a gestão da administração exitosa de doenças crônicas é indispensável conhecer a condição dos recursos individuais, físicos, cognitivos e ambientais disponíveis, a clara compreensão e aceitação da doença pelo indivíduo e a introdução de medidas de intervenção capazes de atuar sobre os recursos pessoais e sobre a compreensão e aceitação da doença pelo doente.
Para a tomada de decisão sobre medidas de tratamento, os estudos levam em consideração, além da listagem das enfermidades incidentes no indivíduo, a caracterização dos recursos pessoais que podem ser lançados mão, a orientação a ser dada para a terapêutica e o convencimento da pessoa doente sobre a eficiência de medidas de controle do stress resultante. Contam para o tratamento, ao lado do conhecimento detalhado da doença, a disponibilidade de recursos sociais e de apoio familiar.
Pelo lado da aceitação da doença é de importância central que haja uma conscientização pela pessoa afetada de que a doença incorpora em seus aspectos de tratamento uma modificação no comportamento e do modo de vida. Neste aspecto existem diversos conceitos de intervenções como programas de aprendizado no caso da diabete, no controle do stress, medidas de terapia familiar, os quais são disponibilizados por instituições públicas ou privadas e que contribuem para a efetividade de medidas de tratamento direcionadas aos doentes.
Entre os diversos modelos de intervenção que são propostos, dois distinguem-se por seu foco de atuação sobre crises em geral e limitações causadas por doenças. Em um modelo por exemplo, a pessoa atingida experimenta modificar ativamente a vivência da doença. Noutro é modificado o conceito das limitações que atingem o indivíduo, caracterizados quais valores são modificados e quais objetivos serão adaptados, de forma a desconstruir as limitações ou mesmo propor a sua não aceitação. Neste caso, por exemplo, é possível introduzir controles que exercem influência sobre as condições do ambiente externo, como na redução de barreiras existentes no ambiente residencial que afetam a mobilidade e podem causar lesões e quedas.
As medidas de intervenção são estruturadas para levar ao enfraquecimento ou eliminação de dificuldades causadas por doenças crônicas e baseiam-se em especial no trabalho conjunto ativo do paciente. Além de mudanças no modo de vida diário, contam por exemplo, a auto regulação da ingestão dos medicamentos e a visitação regular para consulta e acompanhamento médico.
A gestão de doenças direcionada a pessoas idosas deveria estar focada especialmente sobre as reservas de recursos da pessoa, em fatores motivacionais, bem como em variáveis cognitivas. Os modelos de terapias estão fortemente influenciados por especificidades individuais e os objetivos para uma intervenção otimizada precisam decorrer do planejamento e conduzidas no contexto biográfico dos pacientes (Kliegel et al, 2012).

2.3.3-Lidar com a viuvez

Uma das perdas mais graves que pode ocorrer em idades mais avançadas é o falecimento do cônjuge, no entanto, o dano que pode causar nos indivíduos é variável. É verificado que muitas pessoas idosas podem lidar de forma positiva com a perda do seu companheiro e dificuldades prolongadas de adaptação somente são identificadas em pequenos grupos menos significativos. Um objetivo importante do tratamento da viuvez é compreender as dificuldades e necessidades das pessoas atingidas e oferecer as melhores medidas de apoio possíveis.
A morte de uma pessoa próxima é uma das experiências de ruptura mais cortante que pode ocorrer no curso de vida do indivíduo. A forma de como lidar com a viuvez é uma parte do estudo do envelhecimento que envolve um tema permanente e de importância para a gerontologia aplicada.
O que esta perda significa para os indivíduos varia bastante. Pode significar em primeiro lugar a perda da única pessoa íntima confiável, e da pessoa com quem se desenvolveu a fundação de uma família, a construção de um lar e a criação dos filhos e descendentes. Através do compartilhamento da organização da vida diária ocorre uma interação pessoal que dá significado a existência na velhice e a perda desta condição representa um aspecto muito difícil de administrar. Para a pessoa que sobrevive, parece que uma parte de si mesmo foi suprimida. Acrescente-se a este momento delicado, que as providências que precisam ser tomadas pela pessoa que permanece, assume uma sobrecarga administrativa elevada, que se adiciona a uma fase emocionalmente dura e com forte influência sobre o estado de saúde do indivíduo.
No caso do falecimento após um longo período de enfermidade é provável que os familiares que atuaram nos cuidados ao doente estejam extenuados e o falecimento venha a se constituir em um momento de alivio.

A orientação da maneira de como se lidar com a viuvez pode assumir diferentes formas e há um entendimento de que as medidas de controle de suas consequências são importantes. Em uma situação considerada “normal” ou “saudável” ocorre uma fase intensa de tristeza e luto, na qual a pessoa atingida se concentra no abatimento, seguindo-se por uma fase de “normalização gradual”, a qual em determinado momento desemboca em um estado que se define como de “superação”. Desvios neste padrão de reação, como no alongamento do estado de luto, a conduta é considerada como sinal de uma reação patológica, que irá desenvolver ou agravar problemas de saúde. O prolongamento da fase de luto só tem significado para diversas culturas, que em geral não são ocidentais.
Os estudos mostram uma grande variabilidade entre indivíduos nas reações sobre a viuvez e indicam duas orientações para se superar o trauma da perda. A primeira concentra-se sobre a sensibilidade ao luto e sobre a realidade das perdas, enquanto a segunda orienta-se para a tentativa de mitigar a dor, buscar distanciar-se da tristeza e concentrar-se sobre as demandas diárias da vida.
A pessoa atingida precisa dosar a vivência do luto e ao mesmo tempo, suprir espaço, reunir forças para efetuar a modificação necessária da vida quotidiana. Na prática, a adoção de ambas estratégias é o mais comumente eficaz.
Pessoas, que no período anterior à perda, estiveram afetadas por perturbações psíquicas, como depressão ou pânico, vivenciam com maior dificuldade a viuvez. Quando a viuvez ocorre em idades avançadas é provável também ocorrer o agravamento da saúde do idoso remanescente. No caso de uma longa fase de cuidados dedicados ao cônjuge doente, antes de seu falecimento, isto representa uma sobrecarga de cuidados e desgaste do estado emocional, o que pode ser agravado pela falta de apoio dos familiares no processo de divisão de responsabilidades na prestação de cuidados ao doente.
Também é encontrada frequentemente uma relação negativa entre baixos níveis de rendimentos e o grau de formação escolar da pessoa viúva. Esta condição causa uma tensão significativa na fase de prestação de cuidados ao enfermo pelo grupo de pessoas responsáveis, e na adaptação da pessoa viúva na fase da vida após o falecimento.
Outro aspecto que influi no modo como as pessoas lidam com a viuvez é a forma de organização individual ou familiar frente a realidade da finitude. É bastante claro que as pessoas se sentem despreparadas para a morte, mesmo após longos períodos de tratamento da pessoa doente. Os estudos indicam que ocorrem três campos que podem ser focados no enfrentamento da morte: o emocional (paz decorrente do falecimento após fase de tratamento); o programático (planejamento e providências antecipadas); o campo da informação (entendimento de aspectos médicos da fase final da vida). No entanto mesmo pessoas que se organizaram antecipadamente ainda podem sofrer reações e influencias emocionais inesperadas.
Como regra geral, deve ser reconhecido que muitas pessoas viúvas não irão necessitar medidas de intervenção de apoio especial. Os dados indicam inclusive que elas superam melhor a viuvez, quando suas reações adaptativas naturais podem transcorrer sem ser perturbadas por intervenções desnecessárias. Ao mesmo tempo deve ser reconhecido que a pessoa atingida em sua experiência pessoal de perda precisa ser apoiada. Uma validação de sua vida por pessoas do seu ambiente de relacionamento é considerada como uma forma importante de ajuda. Neste sentido grupos profissionais que atuam em apoio ao luto desempenham um papel relevante na ajuda pessoal para a busca da definição de novos objetivos. Algumas perguntas e respostas que podem ser levantadas são oportunas, e ajudam a reestruturar a vida da pessoa viúva, entre as quais podem ser citadas: em que medida a pessoa se sente deprimida ou amedrontada; quanto amparo através da famílias e amigos foi encontrado; no caso de um tratamento prolongado, quanto esforço e sobrecarga atingiu a pessoa; em que medida a pessoa se sentiu organizada/preparada para lidar com o falecimento e apoio a sua vida após a morte. Opções de apoio e tratamento a viuvez podem resultar destes questionamentos, através da forma como estas perguntas são respondidas, e podem conduzir um tratamento medicamentoso ou psicoterápico no caso de pânico ou depressão (Boerner, 2012).
2.3.4-Planejamento e administração da aposentadoria
A saída da pessoa da atividade profissional e a adaptação para a fase pós trabalho tem importantes repercussões, tanto para o interesse individual como público. A passagem para a aposentadoria é entendida como uma experiência crítica para a vida pessoal e traz responsabilidades que exigem uma nova adaptação e planejamento individual. Medidas de planejamento para a aposentadoria tem sido oferecida por empresas através de cursos que incluem aspectos da legislação que afetam aposentados e sobre o direito de idosos. O engajamento de instituições públicas neste trabalho tem oferecido resultados positivos na orientação de gestão da aposentadoria.
O financiamento do sistema de aposentadoria no Brasil tem se mostrado um enorme desafio para a sociedade em função de mudanças demográficas e alongamento do tempo de vida. O desequilíbrio da Previdência Social alcançou nos primeiros 11 meses de 2014 o valor de R$58,4 bilhões ante R$55,3 bilhões registrados para o mesmo período de 2013. Como proporção do PIB o desequilíbrio previdenciário foi de 1,25% e tem sido influenciado pela assunção de compromissos com aposentados do setor rural, que contribuem com valores ínfimos e o descumprimento histórico da União na obrigação de custear um terço das despesas do INSS, cabendo um terço às empresas e um terço aos empregados. Se a regra tivesse sido cumprida não haveria desequilíbrio (Editorial Econômico, Estado de São Paulo, 02/01/15).
Com a passagem para a fase pós trabalho, surge um desafio para os indivíduos e seu ambiente pessoal, e cuja nova condição de vida precisa ser avaliada de forma crítica. As condições de vida de pessoas aposentadas são influenciadas por seu nível de formação e de qualificação profissional, pelo seu histórico econômico e social e por características pessoais e familiares, as quais são bastante diferenciadas entre os indivíduos que se aposentam. No contexto histórico individual influi de forma marcante a realização de um planejamento antecipado para o tempo da aposentadoria o que inclui conhecimentos adquiridos nos anos da vida profissional e fatos que incidiram sobre as condições sociais e de saúde.
A condição de vida modificada pela aposentadoria levou a Gerontologia, a Sociologia e a Psicologia a realizar inúmeros estudos para desenvolver orientações sobre a necessidade de adaptação ao tempo pós trabalho, o qual indicou um quadro de resultados bastante diferenciado entre grupos de pessoas aposentadas. Com o ingresso na aposentadoria altera-se a situação financeira. Em média, perdas de receitas alcançam 25% a 30%, mas ocorrem diferenças significativas ligadas ao nível de educação, status profissional prévio e entre homens e mulheres. No caso de casais o nível de renda da aposentadoria é maior, enquanto que solteiros, separados, viúvos e mulheres, tem receitas mais baixas.
O status de saúde pode sofrer melhoras em pessoas que se aposentaram em razão de inabilitações decorrentes do trabalho, mas isto também implica em uma receita menor decorrente do tempo de aposentadoria antecipada.
O bem-estar geral, embora seja um aspecto subjetivo, permanece em geral alto, o que decorre de ganhos específicos de tempo livre e pequenas perdas de status e de receitas não chegam e exercer uma influência negativa expressiva.
Grandes pioras na condição de vida na fase de aposentadoria estão ligadas a pessoas com baixo nível educacional e sócio econômico, sobretudo em mulheres e em pessoas mal inseridas na rede social. Com a perda de contatos em seu grupo de trabalho, o status social passa a se reduzir e depender do círculo familiar, de amigos, de inclusão em grupos de relacionamento, de grupos religiosos e de apoio institucional.
A aposentadoria também pode definir uma nova forma exitosa de se lidar com a estrutura do tempo, o que permite o estabelecimento de novos objetivos e criação de interesses que substituem atividades anteriores menos prazerosas. Neste aspecto podem ocorrer efeitos positivos, por haver maior disponibilidade de tempo para ser dispendido com familiares, estabelecer novos contatos, desenvolver atividades de lazer, hobbies e participar de grupos sociais.
A adaptação ao período de aposentadoria é melhor conduzida através do planejamento antecipado. Estratégias de adaptação estão atualmente impregnadas da imagem de “um envelhecimento produtivo” e integração social através de uma participação ativa. Para incorporar estes objetivos, estão disponíveis para pessoas aposentadas, inúmeras ofertas de formação complementar como Universidades da Terceira Idade, Cursos Técnicos de reciclagem e atualização profissional para grupos seniores, que desejam continuar no mercado de trabalho. Contam também iniciativas de pequenas e médias empresas que incorporam aposentados em seu quadro funcional e organizações que aceitam voluntários para atuarem em ações comunitárias e sociais.
O conceito de projeto orientado para a adaptação de aposentados tem sido objeto de estudos e pesquisas, nos quais participam idosos, contribuindo com troca de experiências, no desenvolvimento de alternativas de interesse comum e engajamento comunitário. O financiamento destas iniciativas tem ocorrido através, tanto da iniciativa privada como por instituições públicas (Clemens, 2012).

2.3.5-Fontes de consulta

BOERNER,K, Umgang mit Verwitwung, In: Wahl,H,W, Römer,T,C & Ziegelmann, Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

CLEMENS,W, Vorbereitung auf und Umgang mit Pensionierung. In: Wahl,H,W, Römer, C,T, & Ziegelmann,J,P. Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

FREUND,A,M, & HENNECKE,M. Lebensgestaltung im höheren Alter. In. Wahl,H,W, Römer,C,T & Ziegelmann,J.P. Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

KLIEGEL,M, BROM,S,S,MELZER,M & AKGÜN,C. Krankeit und Krankeitsmanagement. In: Wahl,H,W, Römer,C,T & Ziegelmann,J,P, Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

O ESTADO DE SÃO PAULO, Economia-Editorial Econômico, Aumento sazonal do déficit do INSS, 02/01/2015.


Sobre o autor:

Nelson Frederico Seiffert

Doutor em Engenharia de Produção, com a tese de Doutorado sobre Gestão Ambiental. Trabalhou em Pesquisa na EMBRAPA durante 25 anos.

Desenvolve atualmente estudos na área de Gerontologia Ambiental e Aplicada. Conduziu Seminários sobre Gerontologia Ambiental e Aplicada no NETI/UFSC em 2015, 2016 e é Diretor Técnico Científico da ANG/SC – GESTÃO 2017/2019.

E-mail: [email protected]

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