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A Interface da saúde bucal e saúde sistêmica dos idosos

A Interface da saúde bucal e saúde sistêmica dos idosos

Inessa Solek Teixeira

Diante da saúde frágil dos idosos é importante que a saúde bucal esteja em dia. Uma saúde bucal deficiente, nesta faixa etária, pode ser vista como uma diminuição da função mastigatória resultante de dentes cariados, de doença periodontal (dentes amolecidos), de próteses inadequadas ou ausência delas, higiene bucal negligente, presença de lesões bucais, dor, inflamação ou infecções.
Uma cárie pode se tornar uma porta de entrada de bactérias para a corrente sanguínea. Quando uma cárie torna-se mais profunda a ponto de comprometer a polpa do dente, ou seja, a parte interna do dente onde se encontram os vasos e nervos, as bactérias ali instaladas poderão percorrer a corrente sanguínea e acarretar danos a vários órgãos do corpo.
As Bactérias que percorrerem a corrente sanguínea e forem para o coração podem causar endocardite bacteriana, ao se dirigirem para o cérebro podem causar meningite, para o pulmão, pneumonia, para o rim, infecção urinária, sendo que as bactérias oriundas da boca podem provocar problemas articulares quando se alojarem nas articulações. Estudos comprovam que tais situações se verificam mais facilmente em pacientes com imunidade baixa, principalmente os idosos.
Ainda, o tártaro, que nada mais é do que a placa bacteriana calcificada, resultante do resto de alimento que se depositou no dente devido a má escovação. Quando o tártaro se forma, provoca inflamação na gengiva deixando-a inchada e sangrando. Devido a proximidade do tártaro à corrente sanguínea, as bactérias podem facilmente percorrer o corpo e se depositar em algum órgão, provocando desta forma infecções sistêmicas.
Com isso, sempre que um paciente trata uma infecção urinária com antibiótico e não remove as infecções da boca, que pode ser o foco inicial, ele está sujeito a ter infecções urinárias recorrentes, pois o tártaro é um depósito de bactérias escondidas onde o antibiótico não tem acesso.
Muitos idosos, com a diminuição da sua capacidade funcional resultante de déficits neurológicos e motores apresentam dificuldades de realizar uma higiene bucal adequada. Nesses casos, torna-se importante que os familiares e cuidadores supram essa necessidade, auxiliando os idosos na escovação dentária ou limpeza das próteses, evitando o acúmulo de restos de alimentos na boca. Pois, esse acúmulo de alimento poderá desencadear várias complicações que afetarão não só a boca, mas a saúde geral do idoso.

Sendo assim, uma saúde bucal satisfatória é essencial para uma nutrição variada, a qual possibilitará a manutenção da saúde geral e de uma melhor qualidade de vida, para uma autoestima positiva e uma vida social saudável.
A saúde começa pela boca e não deve ser negligenciada em nenhuma fase da vida!

 

Fonte: http://salomaochris.blogspot.com.br/2012/04/saude-bucal-x-saude-sistemica.html

 

Referências bibliográficas:
CARVALHO, I. M. M. Avaliação Sócio Odontológica de 300 pessoas idosas. 2000.190f.Tese de doutorado. Faculdade de São Paulo, Bauru, SP.
DIAS, L.Z.S.; Doença periodontal como fator de risco para doença cardiovascular. Rio de Janeiro; s.n; 2002. Disponível em: http://ufpe.br.
MOJON, P. Oral health and respiratory infection. Canadian Dental Association, Canadá, v.68, n.6, p 340-345, 2002.
SCANNAPIECO, F.A.; HO, A.W. Potential Associations between chronic respiratory disease and periodontal disease: analysis of national health and nutrition examination survey III. Journal of Periodontology, Estados Unidos, v. 72, n.1, p. 50-56, Jan. 2001.


Sobre a autora:
Inessa Solek Teixeira
Cirurgiã Dentista – CRO-SC: 5499 Pós-graduada em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. Dentista em Casas Geriátricas da Grande Florianópolis. Protesista do Centro de Especialidades Odontológicas da Prefeitura Municipal de Tijucas-SC. Associada da ANG SC. E-mail: [email protected]

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 Enfrentamento da Violência Contra Idosos

Maria Joana Barni Zucco

O Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa (15 de junho) foi instituído pela ONU, em 2006, com o objetivo de discutir publicamente este tema, como forma de prevenção e de enfrentamento desse mal social.

Qualquer ação ou omissão que fere o bem-estar físico e emocional da pessoa idosa, não importa se praticada uma ou muitas vezes, em lugar público ou privado, é uma forma de violência, uma agressão aos direitos do idoso e, portanto, passível de configurar um crime.

Cumpre lembrar que o Estatuto do Idoso não apenas “regula os direitos especiais das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos”; ele define ações e omissões e as considera crimes de ação penal pública incondicionada. Ou seja: o titular de uma ação judicial de violência contra idoso é o próprio Estado, no seu papel de tutelar interesses sociais e manter a ordem pública. Mesmo que a vítima perdoe seu agressor ou não queira que a agressão seja denunciada, uma vez conhecida pelo Ministério Público, ela deve considerada.

Lamentavelmente, são muitas as formas de violência contra idosos. A negligência é a campeã, mas há diversos outros tipos de agressões, como a violência física, sexual, abuso financeiro e patrimonial, o abandono, a discriminação social… E, obviamente, em todas as suas modalidades, ocorre também a violência psicológica, pois, qualquer que seja a violência contra o idoso, é agredido também o seu estado emocional.

Constata-se que a violência contra idosos está muito difundida, mas é de difícil combate penal, pois, com frequência, ela ocorre dentro dos próprios lares. Por isso, a vítima não denuncia. Ninguém denuncia! Aliás, com frequência, os agressores sequer assumem que estejam cometendo uma violência… Não raro, os agressores encaram como NORMAIS suas atitudes contra o bem-estar dos idosos.

Diante dessas constatações, estratégias de enfrentamento mais amplas precisam ser traçadas. Ainda que a lei defina como crime essas violências e que a justiça possa puni-las, as crescentes estatísticas demonstram a insuficiência da estratégia punitiva.

Parece claro ser prioritário, dar visibilidade à situação real da violência contra o idoso. Ampliar a consciência (local e mundial) política e social da sua existência. DESNATURALIZAR a sua existência. Para tanto, é preciso que os direitos das pessoas idosas sejam amplamente conhecidos, por toda a sociedade, mas, principalmente, por elas mesmas, para saberem se defender. Além disso, cumpre que sejam conhecidas e divulgadas as penalidades aplicáveis a quem descumprir tais direitos.

Paralelamente, são necessárias ações preventivas que podem ser alcançadas, inicialmente, pela educação intergeracional, com a inclusão de questões sobre o processo de envelhecimento e sobre os direitos dos idosos nos conteúdos escolares. Essa prevenção poderá ocorrer, também, pelo fortalecimento de políticas públicas de orientação e apoio a famílias que abrigam idosos, pela formação de profissionais de saúde, assistência, cuidadores em geral, dentre outras profissões, com formação sobre o fenômeno do envelhecimento e com habilidades para lidar com as limitações dos idosos. Cabe, ainda, investir no cuidado da saúde física, mental e na autonomia da pessoa que envelhece, pois, quanto menor sua dependência, maior sua resiliência e capacidade de se contrapor a violações de seus direitos. Por fim, como parte da prevenção à violência e do fortalecimento do idoso como sujeito de direitos, há também a necessidade de mudança do paradigma familiar que, historicamente, aceita o envelhecimento como algo inexorável, implacável, incomplacente, contra o qual nada se pode fazer… Conhecida e aceita a possibilidade de uma vida longeva, é possível, sim, preparar-se para ela, por meio da educação e de um plano familiar para o envelhecimento.

Por último, sim, as ações corretivas, a aplicação e punição da lei. E para tanto é preciso romper o silêncio. Denunciar toda e qualquer violência ou ameaça de violência contra o idoso. A lei impõe a todos nós, cidadãos, o dever de zelar pela dignidade do idoso, prevenindo e denunciando violações de seus direitos.

Fonte imagem: Freepik.com

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Sobre a autora:

 Maria Joana Barni Zucco

Advogada (OAB/SC 30.863) membro da Comissão do Direito do Idoso da OAB/SC e Conselheira Titular no Conselho Estadual do Idoso – CEI/SC.

E-mail: [email protected]

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Reflexões Sobre o Atendimento aos Idosos na Atenção Básica de Saúde

Lilian Suelen de Oliveira Cunha

O processo de transição demográfica em que o Brasil vivencia atualmente impacta diretamente no perfil epidemiológico da população. A elevada prevalência de doenças crônicas não transmissíveis e ao mesmo tempo a persistência no país de doenças transmissíveis conforme expõe Veras (2009) traz uma série de questões cruciais para gestores e pesquisadores dos sistemas de saúde, com repercussões para toda a sociedade, especialmente em um contexto de acentuada desigualdade social, pobreza e fragilidade das instituições.

Neste sentido, o envelhecimento populacional provoca grandes desafios à Saúde Pública, visto as especificidades das necessidades de serviços e cuidados que essa faixa etária necessita. Esse processo de envelhecimento demanda mudanças na família, na comunidade e no contexto dos serviços de saúde.  Dentre essas mudanças, as novas disposições dos arranjos familiares requer um olhar mais atento em que se observa o aumento da proporção de idosos morando sozinhos e/ou dividindo espaço com parentes ou outras pessoas da sua geração.

Destaca-se que na condição de idoso morando sozinho amplia-se a necessidade do cuidado de profissionais na Atenção Primária à Saúde. Estudos mostram que existe associação positiva entre as relações interpessoais e o estado de saúde, indicando que a interação social diminui a associação entre a carga de doenças e sintomas depressivos (ROMERO, 2002). Deste modo, o apoio social reduz a relação entre comprometimento funcional e sintomas depressivos (HATFIELD et al., 2013). Ainda que morar sozinho seja um sinal de independência para as atividades de vida diária, pessoas idosas estão mais propensos a receber cuidado formal, comparativamente àqueles que residem com outras pessoas (CAMARGOS et al., 2011), assim morar sozinho pode-se tornar um indicador de vulnerabilidade.

Nesta perspectiva, acredita-se na ideia do planejamento como um modo racional de apoio à viabilidade de políticas públicas para a população idosa, uma vez que a saúde, como um setor público da sociedade, incorpora e emprega a lógica do planejamento para seus serviços e para a organização do seu próprio sistema de saúde. O planejamento constitui uma possibilidade de aproximação real às necessidades e demandas da população, além de ser uma forma de conjugar aquilo que realmente a população necessita para manutenção de uma vida equilibrada e autônoma na saúde com aquilo que os serviços de saúde ofertam (ABRAHÃO, 2007).

Nesta lógica, o tipo de problema determina o método de planejamento a ser empregado. Assim, no cotidiano das equipes de estratégia de saúde da família, os problemas são de diferentes ordens e exige ações estratégicas para o seu enfretamento. Entre os casos amplos e complexos para as equipes de saúde faz parte a situação de saúde de pessoas idosas. Caberá aos profissionais de saúde, em todos os níveis, de forma intersetorial e multiprofissional, conforme suas competências, prover os meios para alcançar o propósito do planejamento em saúde dos idosos.

Segundo o Ministério da Saúde, por meio da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), estabelecida pela Portaria n° 2.558/2016, e considerando a necessidade de que o setor de saúde disponha de uma política atualizada relacionada à saúde dessa população. Com isso, direciona por intermédio de diretrizes: a promoção do envelhecimento ativo e saudável; às ações intersetoriais, visando à integralidade da atenção; provimento de recursos capazes de assegurar a qualidade da atenção à saúde da pessoa idosa; estímulo à participação e fortalecimento do controle social; formação e educação permanente dos profissionais de saúde do sistema único de saúde (SUS), divulgação e informação sobre a PNSPI para profissionais de saúde, gestores e usuário; promoção de cooperação nacional e internacional das experiências na atenção à saúde da pessoa idosa; e apoio ao desenvolvimento de estudos e pesquisas.

Um novo olhar, de cuidado e respeito, deve ser direcionado aos idosos, dando-lhes dignidade. Os profissionais de saúde, em especial os inseridos na Atenção Básica, exercem papel fundamental nessa mudança (MONIER; SOARES, 2016). Corroborando com as autoras ler-se no documento norteador Programa Acompanhante de idosos São Paulo (2012) cabe aos gestores e profissionais da saúde de todos os níveis de atenção do SUS promover a qualidade de vida da pessoa idosa, bem como preservar sua autonomia e independência funcional.

Entende-se que as equipes de saúde na Atenção Básica têm a oportunidade de conhecer a realidade dos indivíduos em seu contexto social e intervir nela, ou seja, são importantes instrumentos na promoção da saúde (CARDOSO et al., 2011). Então, reflete-se de que forma essas equipes podem desenvolver seu trabalho para um idoso morando sozinho? Ampliar o vínculo entre o usuário e a equipe (Estratégia Saúde da Família e Núcleo de Apoio da Saúde da Família) por meio de visitas domiciliares, envolver a comunidade e buscar por familiares no cuidado deste idoso, acolher este idoso na rede de serviços de suporte social, possibilitando um acompanhamento humanizado de sua condição de vida e saúde.

A assistência à saúde da pessoa idosa deve ser baseada na continuidade, em um cuidado integral, uma vez que o atendimento médico individual esporádico e restrito somente às complicações não tem atendido às necessidades dessa população. Para atingir a meta da continuidade da assistência, os profissionais de saúde precisam, portanto, desvencilhar-se do padrão de cuidado isolado, fragmentado, paternalista e autoritário; renovando o método de trabalho e adotando como filosofia o trabalho em equipe interdisciplinar, com visão de totalidade do ser humano, de forma que a pessoa idosa seja vista como um todo, considerando sua história de vida e deu contexto social (MARIN et al., 2010).

A integralidade ampliada à pessoa idosa permeia a articulação do cuidado de cada profissional, de cada equipe e dos gestores. A construção da rede de atenção é fundamental para esse cuidado integral, universal e equânime. Observa-se que mesmo com todas as políticas, leis e ações voltadas para a população idosa, a atenção ainda é incipiente. Portanto, os profissionais da equipe de saúde da família devem estar atentos à mudança do perfil populacional da sua área de abrangência e estabelecer vínculo de forma a garantir uma atenção integral e contínua a esta crescente população.

Fonte imagem: Freepik.com

 

Referências bibliográficas:

ABRAHÃO, A.L. Notas sobre o planejamento em saúde. In.: MATTA, G.C. Políticas de saúde: organização e operacionalização do sistema único de saúde./ Organizado por Gustavo Corrêa Matta e Ana Lúcia de Moura Pontes. Rio de Janeiro: EPSJV / Fiocruz, 2007.

CAMARGOS, M. C. S.; RODRIGUES, R.N.; MACHADO, C.J. Idoso, família e domicílio: uma revisão narrativa sobre a decisão de morar sozinho. Revista Brasileira de Estudos de População, Rio de Janeiro, v. 28, p. 217-30, jan./jun. 2011.

CARDOSO, A.F.et al. Protocolo de atenção à saúde do idoso. Tubarão: Copiart, 2011. 128p.

HATFIELD, J.P.: HIRSCH, J.K.: LYNESS, J.M. Functional impairment, illness burden, and depressive symptoms in older adults: does type of social relationship matter? Int J Geriatr Psychiatry [internet], (28):190-98. Available from: http://onlinelibra ry.wiley.com/doi/10.1002/gps.3808/epdf. 2013

MARIN, M.J.S; et al. Características sócio-demográficas do atendimento ao idoso após alta hospitalar na estratégia da saúde de Família. Rev. esc. Enferm. USP. 2010.

MONIER, E.B.; SOARES, R.R. Saúde do Idoso e a saúde da Família. Caderno de Saúde da Família. São Luís. Universidade Federal do Maranhão. UMA-SUS/UFMA, 2016.

ROMERO, D. E. Diferenciais de gênero no impacto do arranjo familiar no status de saúde dos idosos brasileiros. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 7, n. 4, p. 777-94, 2002.

VERAS, R. Envelhecimento populacional contemporâneo: demandas, desafios e inovações. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 43, n.3, p. 548-554, 2009.


Sobre a autora:

Lilian Suelen de Oliveira Cunha

Profissional de Educação Física e com Especialização em Residência Multiprofissional em Saúde da Família pela Universidade Federal de Santa Catarina.

E-mail: [email protected]

 

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O desafio da realização da vida no envelhecimento

2.3-O DESAFIO DA REALIZAÇÃO DA VIDA NO ENVELHECIMENTO

Nelson Frederico Seiffert

No primeiro plano de uma realização exitosa da vida em idosos situa-se o desafio de lidar com perdas nos diferentes aspectos de competências funcionais, tanto da saúde corporal como cognitiva. Modelos de configuração da vida em idades avançadas precisam incluir processos de controle das perdas. Resultados de pesquisas indicam que a imposição de objetivos pessoais desempenha um importante papel e que a escolha de objetivos pessoais (seleção), o esforço em melhorar e perseguir objetivos (otimização) e a substituição de perdas (compensação) conduzem a um envelhecimento bem-sucedido.
Uma definição clara de novos objetivos pessoais para substituir e condicionar perdas, com um foco centrado sobre o processo de condução da vida, em vez de focar apenas sobre a expectativa de resultados, pode ajudar a evitar novas perdas em épocas futuras (Freund & Hennecke 2012).

2.3.1-Configuração da vida em idade avançada

Em idade avançada ocorre numerosas modificações, as quais representam um desafio para o suporte das condições de vida. Estas modificações ocorrem em grande parte por perdas no processo de desconstrução somática, como perdas da funcionalidade corporal, perdas da fluidez da inteligência e da capacidade da memória. No entanto, estas perdas não são uma regra geral para todas as pessoas, muitas das quais apresentam maior estabilidade funcional em idades avançadas, como por exemplo, no âmbito individual da fala e da capacidade cognitiva.No campo individual, em idades avançadas, podem ocorrer inclusive ganhos, como por exemplo, maior satisfação pessoal através do incremento de contatos sociais. No caso da aposentadoria ocorrem efeitos de perdas e ganhos. Por um lado, a aposentadoria está ligada a perdas de contatos com colegas de trabalho e de uma estrutura diária baseada em uma rotina estável. Por outro lado, a aposentadoria oferece a abertura de novas possibilidades através da liberdade de utilização do tempo livre, como a realização de passeios e viagens, o desenvolvimento de hobbies, prática de esportes, entre outras. O tempo após a aposentadoria traz consigo um grande potencial para incrementar ações otimizadas que ofereçam suporte a vida de pessoas idosas.
As modificações individuais que surgem em idades avançadas, representadas por perdas crescentes de habilidades corporais e decorrentes de normas sociais ou de expectativas para esta fase da vida, impõe desafios especiais para a sustentação da qualidade de vida de pessoas que envelhecem. Por esta razão, assumem elevada relevância os processos que atuam sobre a forma de como lidar com as perdas que atingem o envelhecimento.
Diversos estudos e pesquisas propuseram modelos que oferecem orientações de apoio ao envelhecimento, os quais possibilitam administrar modificações e manipular recursos de saúde que se alteram com a idade. A diferença central entre estes modelos situa-se no foco, que pode ser direcionado a uma abordagem proativa, reativa ou pela adoção de controles psicológicos. O modelo de Seleção, Otimização e Compensação (SOC) coloca na formulação de sua teoria de aplicação, prioritariamente, processos proativos e motivacionais.
O modelo da Seleção, Otimização, Compensação – SOC, proposto por Baltes & Baltes (1990) citado por Freund & Hennecke, (2012) postula que o desenvolvimento exitoso do envelhecimento pode ser definido como a maximização simultânea de ganhos de desenvolvimento pessoal e a minimização de perdas. Estas podem ser promovidas através da ação conjunta da seleção de objetivos, da otimização de fatores de desempenho e na compensação de inabilitações funcionais, adoção de estratégias de comportamento, auto regulação e uso de recursos de apoio funcional. O modelo estabelece que a persistência em alcançar objetivos pessoais é o princípio fundamental de suporte a uma vida exitosa no envelhecimento.
A Seleção é definida como o desenvolvimento de escolhas, priorização e contextualização de objetivos (a caracterização de objetivos individuais dentro de seu contexto pessoal de vida), bem como o comprometimento com os objetivos escolhidos.
A seleção exitosa indica que a escolha de objetivos está baseada no pressuposto de que ocorre um leque de alternativas que podem ser introduzidas no processo de envelhecimento para a melhora do desempenho físico e cognitivo individual. O processo de seleção leva o foco a um certo número de possibilidades limitadas que sejam realizáveis pelos indivíduos, e de um modo geral, idosos em idades avançadas estabelecem e conduzem apenas um pequeno número de objetivos. Tal abordagem conduz mais realisticamente a um desempenho exitoso destes objetivos na superação de desabilidades e permite conduzir melhor o dia a dia, quando comparado com pessoas que se conformam com os fatos que os afetam ou deixam-se conduzir pelos acontecimentos, aceitando as perdas.
A otimização orienta-se sobre a persistência na melhoria de objetivos, os quais buscam um ganho de desenvolvimento pessoal. Para isto conta a aquisição e ganho de novas habilidades, o reforço de recursos pessoais, o treinamento de habilidades, a orquestração de habilidades e o investimento de tempo com foco no alcance de objetivos claramente estabelecidos. Os processos de otimização conduzem a elevação ou manutenção de níveis de funcionalidade mais elevados.
Pelo fato de que as perdas se acentuam no envelhecimento o processo de compensação apresenta uma elevada importância. Compensação significa a inclusão de meios para atuar no controle ou substituir perdas, como por exemplo no uso de cadeira de rodas quando o aparelho locomotor apresenta restrições de mobilidade.
Estratégias típicas de compensação são a substituição de habilidades perdidas através da aquisição de novas habilidades, o uso de recursos não utilizados ou a inclusão de suporte através de outra pessoa.
Na administração de modificações no estado de saúde causadas por perdas funcionais, os procedimentos adotados no modelo SOC estão ligados ao planejamento de manutenção da saúde. A aplicação diária de seus princípios possibilita a reabilitação em pessoas, mesmo em idades mais avançadas. Na prática de intervenção deveria estar incorporado o treinamento sobre o uso de estratégias de suporte e proteção a perdas por inabilitações corporais e cognitivas. Os resultados demonstram que na adaptação de objetivos de manutenção da saúde, após a incidência de restrições físicas, a introdução de recursos de compensação pode minimizar o efeito de perdas.
Enquanto que, em idosos jovens a prioridade é o acúmulo de recursos, de facilidades, da otimização na formação educacional, das finanças, da interação familiar, do uso do tempo livre, em idades mais avançadas, as pessoas passam a ser confrontadas com perdas de motivação, da mobilidade e da capacidade cognitiva, havendo necessidade da adoção de medidas que estimulem a manutenção do nível funcional. Não apenas elevar o nível de motivação para evitar agravamento de perdas, mas também perseguir objetivos ligados a valores subjetivos de bem-estar.
Em idosos com idades avançadas os objetivos buscam medidas que possam reduzir perdas funcionais, enquanto que em adultos jovens os objetivos buscam alcançar níveis elevados de desempenho funcional corporal e cognitivo.
A adoção de medidas de suporte para a realização da vida em idades avançadas não depende apenas do domínio do controle exitoso da evolução das perdas, mas também na configuração da própria vida, através do estabelecimento de objetivos pessoais capazes de ser perseguidos. Ao longo do curso de vida é necessária uma orquestração de estratégias que previnam o agravamento de perdas e possam elevar o desenvolvimento de ganhos.
Na prática, parece que a auto regulação para perseguir objetivos pessoais descortina um campo de atuação no qual ainda é possível que sejam obtidos ganhos pessoais. No caso da nutrição e de dietas para emagrecimento, por exemplo, idosos conseguem bons resultados. Outros resultados de auto regulação indicam a importância da imposição de objetivos na regulação emocional que causam efeitos negativos e no reforço da manutenção de efeitos positivos. Os resultados indicam também que a auto regulação é um processo que pode ser treinado através de intervenções objetivas, e que é possível o seu desenvolvimento, mesmo em idades avançadas (Freund & Hennecke, 2012).

2.3.2-Gestão da multimorbidade e doenças crônicas

Em estágios mais avançados do envelhecimento os indivíduos estão sujeitos a sofrer a incidência de doenças decorrentes da multimorbidade e de doenças crônicas. As pessoas são atingidas simultaneamente por diversas doenças, nas quais não há possibilidade de uma cura definitiva, o que impõe modificações orgânicas e psíquicas e que exigem uma nova adaptação do modo de vida. Nesta etapa a tarefa de gestão das inaptidões decorrentes da doença requer uma forte cooperação entre o doente e as pessoas que irão oferecer apoio e tratamento.
As enfermidades que ocorrem no envelhecimento são influenciadas por recursos pessoais dos indivíduos, por terapias desenvolvidas a partir do conhecimento das características das doenças, por intervenções terapêuticas e pelo apoio disponível no ambiente social do idoso. Em pessoas com idades mais avançadas os recursos cognitivos tendem a sofrer regressão. Esta condição pode influenciar o desenvolvimento de um tratamento efetivo, pela dificuldade de obter informações através do doente para a caracterização das diferentes causas de inabilitações que o atingem e o desenvolvimento da terapia adequada.
Em idades mais avançadas as doenças que afetam os indivíduos apresentam características especiais de multimorbidade e ser de caráter crônico. A morbidade manifesta-se com grande probabilidade através de diversas enfermidades simultâneas. No grupo de pessoas com 70 anos ou mais, o número de indivíduos que são afetados por cinco ou mais doenças chega a 30%, e com isto, também se eleva o número de pessoas que passam a tomar um maior número de medicamentos. Estas enfermidades manifestam-se como doenças crônicas, caracterizam-se por sua longa duração e não oferecerem possibilidades de cura.
A gestão de doenças crônicas e das limitações decorrentes de sua incidência está centrada fundamentalmente no manejo conjunto de aspectos subjetivos da vida individual e dos efeitos resultantes que sobrecarregam a pessoa através das restrições no uso dos recursos corporais e cognitivos.
Para a gestão da administração exitosa de doenças crônicas é indispensável conhecer a condição dos recursos individuais, físicos, cognitivos e ambientais disponíveis, a clara compreensão e aceitação da doença pelo indivíduo e a introdução de medidas de intervenção capazes de atuar sobre os recursos pessoais e sobre a compreensão e aceitação da doença pelo doente.
Para a tomada de decisão sobre medidas de tratamento, os estudos levam em consideração, além da listagem das enfermidades incidentes no indivíduo, a caracterização dos recursos pessoais que podem ser lançados mão, a orientação a ser dada para a terapêutica e o convencimento da pessoa doente sobre a eficiência de medidas de controle do stress resultante. Contam para o tratamento, ao lado do conhecimento detalhado da doença, a disponibilidade de recursos sociais e de apoio familiar.
Pelo lado da aceitação da doença é de importância central que haja uma conscientização pela pessoa afetada de que a doença incorpora em seus aspectos de tratamento uma modificação no comportamento e do modo de vida. Neste aspecto existem diversos conceitos de intervenções como programas de aprendizado no caso da diabete, no controle do stress, medidas de terapia familiar, os quais são disponibilizados por instituições públicas ou privadas e que contribuem para a efetividade de medidas de tratamento direcionadas aos doentes.
Entre os diversos modelos de intervenção que são propostos, dois distinguem-se por seu foco de atuação sobre crises em geral e limitações causadas por doenças. Em um modelo por exemplo, a pessoa atingida experimenta modificar ativamente a vivência da doença. Noutro é modificado o conceito das limitações que atingem o indivíduo, caracterizados quais valores são modificados e quais objetivos serão adaptados, de forma a desconstruir as limitações ou mesmo propor a sua não aceitação. Neste caso, por exemplo, é possível introduzir controles que exercem influência sobre as condições do ambiente externo, como na redução de barreiras existentes no ambiente residencial que afetam a mobilidade e podem causar lesões e quedas.
As medidas de intervenção são estruturadas para levar ao enfraquecimento ou eliminação de dificuldades causadas por doenças crônicas e baseiam-se em especial no trabalho conjunto ativo do paciente. Além de mudanças no modo de vida diário, contam por exemplo, a auto regulação da ingestão dos medicamentos e a visitação regular para consulta e acompanhamento médico.
A gestão de doenças direcionada a pessoas idosas deveria estar focada especialmente sobre as reservas de recursos da pessoa, em fatores motivacionais, bem como em variáveis cognitivas. Os modelos de terapias estão fortemente influenciados por especificidades individuais e os objetivos para uma intervenção otimizada precisam decorrer do planejamento e conduzidas no contexto biográfico dos pacientes (Kliegel et al, 2012).

2.3.3-Lidar com a viuvez

Uma das perdas mais graves que pode ocorrer em idades mais avançadas é o falecimento do cônjuge, no entanto, o dano que pode causar nos indivíduos é variável. É verificado que muitas pessoas idosas podem lidar de forma positiva com a perda do seu companheiro e dificuldades prolongadas de adaptação somente são identificadas em pequenos grupos menos significativos. Um objetivo importante do tratamento da viuvez é compreender as dificuldades e necessidades das pessoas atingidas e oferecer as melhores medidas de apoio possíveis.
A morte de uma pessoa próxima é uma das experiências de ruptura mais cortante que pode ocorrer no curso de vida do indivíduo. A forma de como lidar com a viuvez é uma parte do estudo do envelhecimento que envolve um tema permanente e de importância para a gerontologia aplicada.
O que esta perda significa para os indivíduos varia bastante. Pode significar em primeiro lugar a perda da única pessoa íntima confiável, e da pessoa com quem se desenvolveu a fundação de uma família, a construção de um lar e a criação dos filhos e descendentes. Através do compartilhamento da organização da vida diária ocorre uma interação pessoal que dá significado a existência na velhice e a perda desta condição representa um aspecto muito difícil de administrar. Para a pessoa que sobrevive, parece que uma parte de si mesmo foi suprimida. Acrescente-se a este momento delicado, que as providências que precisam ser tomadas pela pessoa que permanece, assume uma sobrecarga administrativa elevada, que se adiciona a uma fase emocionalmente dura e com forte influência sobre o estado de saúde do indivíduo.
No caso do falecimento após um longo período de enfermidade é provável que os familiares que atuaram nos cuidados ao doente estejam extenuados e o falecimento venha a se constituir em um momento de alivio.

A orientação da maneira de como se lidar com a viuvez pode assumir diferentes formas e há um entendimento de que as medidas de controle de suas consequências são importantes. Em uma situação considerada “normal” ou “saudável” ocorre uma fase intensa de tristeza e luto, na qual a pessoa atingida se concentra no abatimento, seguindo-se por uma fase de “normalização gradual”, a qual em determinado momento desemboca em um estado que se define como de “superação”. Desvios neste padrão de reação, como no alongamento do estado de luto, a conduta é considerada como sinal de uma reação patológica, que irá desenvolver ou agravar problemas de saúde. O prolongamento da fase de luto só tem significado para diversas culturas, que em geral não são ocidentais.
Os estudos mostram uma grande variabilidade entre indivíduos nas reações sobre a viuvez e indicam duas orientações para se superar o trauma da perda. A primeira concentra-se sobre a sensibilidade ao luto e sobre a realidade das perdas, enquanto a segunda orienta-se para a tentativa de mitigar a dor, buscar distanciar-se da tristeza e concentrar-se sobre as demandas diárias da vida.
A pessoa atingida precisa dosar a vivência do luto e ao mesmo tempo, suprir espaço, reunir forças para efetuar a modificação necessária da vida quotidiana. Na prática, a adoção de ambas estratégias é o mais comumente eficaz.
Pessoas, que no período anterior à perda, estiveram afetadas por perturbações psíquicas, como depressão ou pânico, vivenciam com maior dificuldade a viuvez. Quando a viuvez ocorre em idades avançadas é provável também ocorrer o agravamento da saúde do idoso remanescente. No caso de uma longa fase de cuidados dedicados ao cônjuge doente, antes de seu falecimento, isto representa uma sobrecarga de cuidados e desgaste do estado emocional, o que pode ser agravado pela falta de apoio dos familiares no processo de divisão de responsabilidades na prestação de cuidados ao doente.
Também é encontrada frequentemente uma relação negativa entre baixos níveis de rendimentos e o grau de formação escolar da pessoa viúva. Esta condição causa uma tensão significativa na fase de prestação de cuidados ao enfermo pelo grupo de pessoas responsáveis, e na adaptação da pessoa viúva na fase da vida após o falecimento.
Outro aspecto que influi no modo como as pessoas lidam com a viuvez é a forma de organização individual ou familiar frente a realidade da finitude. É bastante claro que as pessoas se sentem despreparadas para a morte, mesmo após longos períodos de tratamento da pessoa doente. Os estudos indicam que ocorrem três campos que podem ser focados no enfrentamento da morte: o emocional (paz decorrente do falecimento após fase de tratamento); o programático (planejamento e providências antecipadas); o campo da informação (entendimento de aspectos médicos da fase final da vida). No entanto mesmo pessoas que se organizaram antecipadamente ainda podem sofrer reações e influencias emocionais inesperadas.
Como regra geral, deve ser reconhecido que muitas pessoas viúvas não irão necessitar medidas de intervenção de apoio especial. Os dados indicam inclusive que elas superam melhor a viuvez, quando suas reações adaptativas naturais podem transcorrer sem ser perturbadas por intervenções desnecessárias. Ao mesmo tempo deve ser reconhecido que a pessoa atingida em sua experiência pessoal de perda precisa ser apoiada. Uma validação de sua vida por pessoas do seu ambiente de relacionamento é considerada como uma forma importante de ajuda. Neste sentido grupos profissionais que atuam em apoio ao luto desempenham um papel relevante na ajuda pessoal para a busca da definição de novos objetivos. Algumas perguntas e respostas que podem ser levantadas são oportunas, e ajudam a reestruturar a vida da pessoa viúva, entre as quais podem ser citadas: em que medida a pessoa se sente deprimida ou amedrontada; quanto amparo através da famílias e amigos foi encontrado; no caso de um tratamento prolongado, quanto esforço e sobrecarga atingiu a pessoa; em que medida a pessoa se sentiu organizada/preparada para lidar com o falecimento e apoio a sua vida após a morte. Opções de apoio e tratamento a viuvez podem resultar destes questionamentos, através da forma como estas perguntas são respondidas, e podem conduzir um tratamento medicamentoso ou psicoterápico no caso de pânico ou depressão (Boerner, 2012).
2.3.4-Planejamento e administração da aposentadoria
A saída da pessoa da atividade profissional e a adaptação para a fase pós trabalho tem importantes repercussões, tanto para o interesse individual como público. A passagem para a aposentadoria é entendida como uma experiência crítica para a vida pessoal e traz responsabilidades que exigem uma nova adaptação e planejamento individual. Medidas de planejamento para a aposentadoria tem sido oferecida por empresas através de cursos que incluem aspectos da legislação que afetam aposentados e sobre o direito de idosos. O engajamento de instituições públicas neste trabalho tem oferecido resultados positivos na orientação de gestão da aposentadoria.
O financiamento do sistema de aposentadoria no Brasil tem se mostrado um enorme desafio para a sociedade em função de mudanças demográficas e alongamento do tempo de vida. O desequilíbrio da Previdência Social alcançou nos primeiros 11 meses de 2014 o valor de R$58,4 bilhões ante R$55,3 bilhões registrados para o mesmo período de 2013. Como proporção do PIB o desequilíbrio previdenciário foi de 1,25% e tem sido influenciado pela assunção de compromissos com aposentados do setor rural, que contribuem com valores ínfimos e o descumprimento histórico da União na obrigação de custear um terço das despesas do INSS, cabendo um terço às empresas e um terço aos empregados. Se a regra tivesse sido cumprida não haveria desequilíbrio (Editorial Econômico, Estado de São Paulo, 02/01/15).
Com a passagem para a fase pós trabalho, surge um desafio para os indivíduos e seu ambiente pessoal, e cuja nova condição de vida precisa ser avaliada de forma crítica. As condições de vida de pessoas aposentadas são influenciadas por seu nível de formação e de qualificação profissional, pelo seu histórico econômico e social e por características pessoais e familiares, as quais são bastante diferenciadas entre os indivíduos que se aposentam. No contexto histórico individual influi de forma marcante a realização de um planejamento antecipado para o tempo da aposentadoria o que inclui conhecimentos adquiridos nos anos da vida profissional e fatos que incidiram sobre as condições sociais e de saúde.
A condição de vida modificada pela aposentadoria levou a Gerontologia, a Sociologia e a Psicologia a realizar inúmeros estudos para desenvolver orientações sobre a necessidade de adaptação ao tempo pós trabalho, o qual indicou um quadro de resultados bastante diferenciado entre grupos de pessoas aposentadas. Com o ingresso na aposentadoria altera-se a situação financeira. Em média, perdas de receitas alcançam 25% a 30%, mas ocorrem diferenças significativas ligadas ao nível de educação, status profissional prévio e entre homens e mulheres. No caso de casais o nível de renda da aposentadoria é maior, enquanto que solteiros, separados, viúvos e mulheres, tem receitas mais baixas.
O status de saúde pode sofrer melhoras em pessoas que se aposentaram em razão de inabilitações decorrentes do trabalho, mas isto também implica em uma receita menor decorrente do tempo de aposentadoria antecipada.
O bem-estar geral, embora seja um aspecto subjetivo, permanece em geral alto, o que decorre de ganhos específicos de tempo livre e pequenas perdas de status e de receitas não chegam e exercer uma influência negativa expressiva.
Grandes pioras na condição de vida na fase de aposentadoria estão ligadas a pessoas com baixo nível educacional e sócio econômico, sobretudo em mulheres e em pessoas mal inseridas na rede social. Com a perda de contatos em seu grupo de trabalho, o status social passa a se reduzir e depender do círculo familiar, de amigos, de inclusão em grupos de relacionamento, de grupos religiosos e de apoio institucional.
A aposentadoria também pode definir uma nova forma exitosa de se lidar com a estrutura do tempo, o que permite o estabelecimento de novos objetivos e criação de interesses que substituem atividades anteriores menos prazerosas. Neste aspecto podem ocorrer efeitos positivos, por haver maior disponibilidade de tempo para ser dispendido com familiares, estabelecer novos contatos, desenvolver atividades de lazer, hobbies e participar de grupos sociais.
A adaptação ao período de aposentadoria é melhor conduzida através do planejamento antecipado. Estratégias de adaptação estão atualmente impregnadas da imagem de “um envelhecimento produtivo” e integração social através de uma participação ativa. Para incorporar estes objetivos, estão disponíveis para pessoas aposentadas, inúmeras ofertas de formação complementar como Universidades da Terceira Idade, Cursos Técnicos de reciclagem e atualização profissional para grupos seniores, que desejam continuar no mercado de trabalho. Contam também iniciativas de pequenas e médias empresas que incorporam aposentados em seu quadro funcional e organizações que aceitam voluntários para atuarem em ações comunitárias e sociais.
O conceito de projeto orientado para a adaptação de aposentados tem sido objeto de estudos e pesquisas, nos quais participam idosos, contribuindo com troca de experiências, no desenvolvimento de alternativas de interesse comum e engajamento comunitário. O financiamento destas iniciativas tem ocorrido através, tanto da iniciativa privada como por instituições públicas (Clemens, 2012).

2.3.5-Fontes de consulta

BOERNER,K, Umgang mit Verwitwung, In: Wahl,H,W, Römer,T,C & Ziegelmann, Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

CLEMENS,W, Vorbereitung auf und Umgang mit Pensionierung. In: Wahl,H,W, Römer, C,T, & Ziegelmann,J,P. Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

FREUND,A,M, & HENNECKE,M. Lebensgestaltung im höheren Alter. In. Wahl,H,W, Römer,C,T & Ziegelmann,J.P. Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

KLIEGEL,M, BROM,S,S,MELZER,M & AKGÜN,C. Krankeit und Krankeitsmanagement. In: Wahl,H,W, Römer,C,T & Ziegelmann,J,P, Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

O ESTADO DE SÃO PAULO, Economia-Editorial Econômico, Aumento sazonal do déficit do INSS, 02/01/2015.


Sobre o autor:

Nelson Frederico Seiffert

Doutor em Engenharia de Produção, com a tese de Doutorado sobre Gestão Ambiental. Trabalhou em Pesquisa na EMBRAPA durante 25 anos.

Desenvolve atualmente estudos na área de Gerontologia Ambiental e Aplicada. Conduziu Seminários sobre Gerontologia Ambiental e Aplicada no NETI/UFSC em 2015, 2016 e é Diretor Técnico Científico da ANG/SC – GESTÃO 2017/2019.

E-mail: [email protected]

Artigos de Associados

Prevenção no curso de vida

2.2- PREVENÇÃO NO CURSO DE VIDA

Nelson Frederico Seiffert

2.2.1 -Formas e significado da prevenção

Prevenção é a ação ou resultado de prevenir-se. Conjunto de medidas ou preparação antecipada (de algo) que visa prevenir (um mal), precaução, cautela. Prevenir é dispor com antecipação (algo) de modo que se evite mal ou danos. Impedir que aconteça, evitar.
A prevenção é um aspecto importante da Gerontologia Aplicada e medidas de intervenção preventivas direcionadas para pessoas idosas tem o objetivo central de assegurar a manutenção dos recursos e controlar o avanço no agravamento do estado de saúde.
A prevenção é também valiosa em idades avançadas. O objetivo de medidas preventivas situa-se sobretudo na manutenção, prevenção da piora da condição de saúde e preservação da autonomia individual. Através de medidas orientadas sobre exigências de saúde, sobretudo de fatores de proteção direcionados ao comportamento das pessoas, é possível que seja alcançado ganhos, não só do tempo de vida, mas também ganhos de vida em boas condições de saúde, com elevado bem-estar, através da compressão da morbidade.
A promoção da saúde deveria ser direcionada para todas as fases do curso de vida, porque os fundamentos de uma vida saudável devem ser incluídos antecipadamente na condução da vida diária. Não deveria ser focada exclusivamente em pessoas com idade avançada porque diz respeito a todos os grupos que ingressam na fase de envelhecimento (Schüz & Ziegelmann, 2012).
Em idades avançadas a prevenção oferece um campo de estudos que apresenta conteúdos valiosos para a pesquisa da Gerontologia Aplicada. Este significado é evidenciado pela Organização Mundial de Saúde, conforme citado por Schüz & Ziegelmann (2012) pelo fato da prevenção indicar que tem um grande valor com o objetivo de formular orientações precoces para pessoas idosas, para que possam usufruir um nível elevado de saúde, autoconfiança, independência e mantenham uma participação ativa na vida social (Weltgesundheitorganisation, 1999).
Estes objetivos indicam sobretudo, que a prevenção na fase de envelhecimento não se situa apenas no estreito conceito do controle e redução do efeito de doenças. Dados atuais de relatórios institucionais da área de saúde indicam, por exemplo, que em grupos de idosos com 64 a 69 anos de idade, 62% sofrem de duas ou mais doenças. No grupo de 70 a 75 anos são cerca de 74% e no grupo de 76 a 81 anos são cerca de 80%.
Isto significa que, o ponto central da prevenção nos estágios mais avançados do envelhecimento, deve concentrar-se, sobretudo, em medidas de prevenção da piora do padrão de saúde, sobre a manutenção dos recursos de saúde ainda disponíveis e para evitar a incidência de novas doenças. Estas intervenções buscam alcançar a compressão da morbidade.
Na subdivisão das etapas de intervenção a prevenção pode ser dividida em Prevenção Primária, Prevenção Secundária e Prevenção Terciária. Sobretudo, não deve deixar de ser considerado que, quando o objetivo é evitar o surgimento de doenças, no caso de doenças específicas como cardiovasculares, estas podem ser evitadas ou reduzidas preventivamente por medidas adequadas de atividade corporal e exercícios físicos.
Pontos de partida para prevenção no envelhecimento:
Os pontos de partida para prevenção, e o grau de sua influência, pelos quais são introduzidas propostas de prescrições de modificações na condução da saúde, são originados a partir de riscos e fatores de proteção para doenças do envelhecimento.
No grupo de idosos não se encontram apenas fatores que são dificilmente modificáveis (ex. predisposição genética, condições ambientais fixas), mas também fatores e variáveis alteráveis (ex. recursos ambientais modificáveis, fatores de risco comportamentais), e também fatores psicológicas e corporais que podem ser alterados. O grau de influência de cada uma destas modificações é variável sobre cada fator, pode atuar de forma simultânea ou ainda agir entre si de forma contrária.
Como exemplo, modificações da fisiologia (estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, especialmente dos processos físico-químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivo sadios) do envelhecimento, como a perda de massa muscular, pode ser compensada por treinamento físico orientado. Os efeitos de tais medidas podem ser efetivos e verificados, mesmo para pessoas bastante idosas (até mais de 80 anos). Por outro lado, modificações fisiológicas trazidas pelo envelhecimento podem ser influenciadas através de diferentes medidas de estabilidade, como por exemplo o rearranjo de recursos ambientais, como na substituição de equipamentos residenciais que dificultam a movimentação dentro das dependências da moradia.
Em outra forma a prevenção orienta-se para o modo de conduta individual, sobretudo sobre a capacidade da pessoa de incorporar modificações de comportamento, sobre o qual é decidido e complementado um Plano de Tratamento de Medidas Preventivas.
Enquanto que efeitos estáveis sobre o estado de saúde, como no caso de predisposição genética e alterações psicológicas são pouco influenciáveis, na melhor hipótese podem ser retardados, outros efeitos podem ser modificados em graus variáveis através da aplicação de medidas apropriadas. O resultado da adoção de uma medida preventiva adequada, depende de que seja direcionada para uma doença específica, ou se for uma medida genérica. Dentro do direcionamento a uma doença específica, atividade corporal por exemplo, pode ser apropriada para agir sobre a propensão da ocorrência de doenças cardiovasculares e também diabete mellitus tipo II, e prover para o não surgimento de doenças demenciais.
Dentro de uma moldura de medidas gerais são abordadas por exemplo, prioridades de conduta para pessoas idosas como no caso de controle do tabagismo, consumo moderado de álcool, atividade corporal, nutrição fora do comum, ingestão irregular de medicamentos. A maioria destes hábitos tem a possibilidade de influenciar diversas causas de doenças.
Propostas de condutas orientadas a prevenção:
As sugestões que são relacionadas abaixo para orientar procedimentos, foram levantados em trabalhos considerados com maior grau de influência sobre a saúde no envelhecimento.
Também em pessoas com idades avançadas (80 manos ou mais) o ato de fumar ainda é um fator de risco significativo para mortalidade, o que significa, que ainda neste grupo seja possível conseguir melhoras de saúde, quando a pessoa parar de fumar. São susceptíveis a efeitos detrimentais as vias respiratórias e doenças cardiovasculares, cujos danos podem ser reduzidos. Programas desenvolvidos para grupos alvo jovens, podem também ser aplicados a pessoa idosas, onde a taxa de sucesso é maior que no caso de jovens. Os argumentos repousam sobre ganhos de bem-estar na superação da dependência e no tempo de vida.
No caso da ingestão irregular de medicamentos por indivíduos idosos, muitas pessoas não se mantêm ligadas às orientações recomendadas para o seu uso. Ao lado de razões variáveis não intencionais, como o esquecimento ou troca de embalagem e tempo de consumo, idosos assumem motivações pessoais para alterar as recomendações de uso dos medicamentos. Isto fundamenta-se no fato de que pessoas idosas frequentemente lidam, ao mesmo tempo, com diversas doenças, com prescrições diversas, com diversos medicamentos. Na prática médica, pode acontecer que diferentes médicos prescrevem diferentes medicamentos, os quais interagem e podem causar efeitos colaterais indesejáveis.
O planejamento e a separação mecânica de medicamentos de uso diário e semanal podem ser organizados antecipadamente, sendo bastante útil para evitar erros não intencionais, mas medidas objetivas para evitar a modificação na prescrição precisam alcançar todo o conjunto de medicamentos através do esclarecimento
detalhado para o idoso, de como exatamente cada medicamento atua no controle das doenças.
Atividades corporais são recomendadas sistematicamente em muitos trabalhos de pesquisa, especialmente para pessoas idosas. O Colégio Americano para Medicina e Esporte, que divulga as mais importantes orientações para atividade corporal de idosos sugere por exemplo: para prevenção de quedas o treinamento de equilíbrio; para prevenção de restrições na capacidade de movimentação e flexibilidade, pelo menos exercícios durante 10 minutos, duas vezes por semana. Para melhora geral do estado de saúde, três vezes por semana durante 20 minutos, para exercícios com esforço elevado, ou cinco vezes por semana, por trinta minutos, para exercícios de esforço moderado. Na prática, apenas uma minoria de pessoas idosas alcança este nível de atividade sugeridas nas recomendações.
Para modificações efetivas e duradouras das atividades corporais, ao lado da disponibilização de estruturas nas quais idosos possam desenvolver atividades físicas há necessidade do apoio (um programa) e também são importantes fatores individuais como motivação e planejamento.
Pesam na prevenção da saúde corporal ainda aspectos ligados a saúde cognitiva,
saúde bucal, nutrição, utilização de conhecimentos de programas e medidas preventivas como vacinação, que são relevantes para a incidência de restrições funcionais. A responsabilidade pessoal deve também ser promovida através de adequada orientação sobre o comportamento pessoal, colocando-se à prevenção, como o quarto pilar da ciência da saúde.
Uma medida preventiva relevante, seria ainda a condução de uma formação positiva para idosos, juntamente com a indicação sobre as principais possibilidades de influências positivas sobre a saúde em cada tempo do envelhecimento. Por isto, ao lado de modificações da conduta individual, também modificações da conduta da sociedade sobre conceitos de envelhecimento amigável, sobre a necessidades de recursos institucionais, privados e profissionais que ofereçam um ambiente de vivência saudável aos idosos. Isto envolve possibilidades individuais de acesso a estudo, recapacitação profissional, acesso a postos de trabalho, a redes sociais, a engajamento comunitário e participação social.
Para que atinja um maior número possível de pessoas idosas, as medidas de prevenção precisam ser planejadas, aplicadas e avaliadas sistematicamente. Um claro esboço de ação efetiva é indispensável, no qual, todos os detalhes pertinentes das medidas de prevenção são colocados antecipadamente de forma bem fundamentada e em estreita relação com os resultados obtidos através de sua aplicação. (Schüz & Ziegelmann 2012).

2.2.2-Aconselhamento para um envelhecimento positivo

Aconselhamento para o desenvolvimento pessoal é comumente definido como ajuda profissional para a organização de processos de tomada de decisão e construção de uma orientação para o desenvolvimento de um plano de vida individual, que também é válido para um envelhecimento positivo. Coloca também um contexto
teórico, no qual o suporte intencional da própria vida ocupa um lugar central e se orienta sobre a escolha e implementação de objetivos de vida e a sua condução ao longo do curso de vida, dentro de um ambiente de possibilidades e restrições.
Um desenvolvimento intencional da vida incorpora processos de auto-observação, de auto avaliação e a implementação de objetivos que se situa sobre um fundamento de identidade e representações cognitivas que podem estar associadas a uma respectiva condição de vida. Pode conduzir a uma autorregularão efetiva baseada em numerosas observações precisas da própria pessoa e ligada a perturbações que ocorrem no seu curso de vida. Neste aspecto (interpretação do valor pessoal do próprio comportamento ou falsas concepções de suas próprias possibilidades de desenvolvimento) podem ser levantadas e equilibradas pela pessoa que atua como conselheiro. Na proposição de correções podem ser observadas e comparadas discrepâncias sobre expectativas e a capacidade atual de desenvolvimento da pessoa.
No objetivo geral como conduzir “uma boa vida” por exemplo, precisa ser caracterizado o seu significado sobre ações capazes de ser implementadas, a existência de meios adequados para sua realização e sua sintonização com outros objetivos pessoais, oportunidades disponíveis e restrições existentes. Tais processos dependem de competências de gestão, as quais são empregadas na reconstrução da situação de desenvolvimento, e de como estes conceitos são colocados e ajustados ao comportamento pessoal.
No aconselhamento para o desenvolvimento pessoal é colocado com grande valor, que o cliente explicite seus objetivos de desenvolvimento e que articulem seus projetos de forma concreta. Por outro lado, a isto pertence o levantamento das cadeias de meios e objetivos e seu retrabalho, através de um diálogo claro com o conselheiro. Neste aspecto pode ser importante que as estruturas conceituais do cliente sejam colocadas baseadas em fundamentos e dados da ciência ou da expertise do conselheiro, que deve trabalhar junto com o cliente, sobre quais meios, quais objetivos e qual plano de desenvolvimento, em dada situação, produz melhores resultados.
Planos de desenvolvimento pessoal contém uma sequência de sub objetivos, que se relacionam sobre um curto espaço de tempo e estão interligados com objetivos de longo prazo. A sequência estrutural de tais planos, com sub objetivos intermediários, permite manter a pessoa focada em resultados intermediários, motivando-a para avançar em direção a objetivos maiores. Sem objetivos claros planos de gestão de desenvolvimento pessoal, as intenções podem ficar presas a um desempenho rudimentar, os quais permanecem atrelados a sentimentos, desânimo e incapacidade de se ajudar.
O aconselhamento pode apoiar planos de vida no esclarecimento de objetivos e na construção de planos de desenvolvimento da vida como o uso do tempo, comportamento interpessoal, aproveitamento de recursos e autorregularão. Quando o padrão de “nada fazer para melhorar”, de adiar ou evitar decisões que conduzam a respostas emocionais, e frequentemente a perda de oportunidades, o trabalho de convencimento consegue eliminar tais atitudes, e é considerado que o aconselhamento é exitoso.
O aconselhamento para o desenvolvimento de um envelhecimento positivo tem por base as restrições progressivas de recursos individuais, apesar de elevada variabilidade, e incorporam um conjunto de características gerais que atingem o processo de envelhecimento. A redução da funcionalidade corporal e do potencial sensorial, que declinam a partir da meia idade de envelhecimento é acompanhada de redução da fluidez da inteligência, bem como no aumento de problemas crônico degenerativos. No entanto, através do avanço do conhecimento e tecnologia existe um amplo espaço de manobra para intervenções compensatórias (ex. visão, audição, dispositivos de mobilidade, cirurgias corretivas) as quais atuam sobre a manutenção do nível funcional e na prevenção do surgimento de novas perdas de recursos individuais.
Treinamento corporal, alimentação sadia, exames preventivos, suporte para habitação e ambiente amigável podem da mesma forma atuar de forma compensatória e em aspectos importantes da prevenção ou minimização de perdas funcionais. A compensação é prevista para ser aplicada em aspectos específicos e é bastante restrita em relação a condições funcionais anteriores em estágios mais jovens. Depende também da disponibilidade de recursos que podem estar em situações limitadas. Uma elevação do esforço no sentido compensatório que pode ser conduzido até metade dos anos de vida de 80 anos, indica ser valioso em diferentes aspectos positivos do envelhecimento.
Aconselhamento do desenvolvimento pessoal com relação à compensação de perdas funcionais orienta-se, sobretudo, sobre questões como o nível do esforço e a relação custo benefício. Os pontos considerados (manutenção funcional através da sobrecarga corporal do treinamento x manutenção através de descontração, suporte, prótese) precisam estar apoiados em conhecimentos científicos específicos em cada área problema. Por outro lado, as pessoas idosas passam a estar interligadas com uma elevação e crescimento do nível de conhecimento, descobertas e expertise, sobretudo no campo da regulação emocional, na vivência subjetiva do balanço do conjunto de ganhos e perdas que podem ser desfavoráveis com o avanço do tempo de vida.
Da mesma forma permanece a discrepâncias entre a qualidade de vida subjetiva desejada e a alcançada, mesmo quando ela se encontra estável. Em idosos jovens, investimentos para ganhos futuros são pessoalmente importantes no campo social e material para a qualidade de vida subjetiva. Já para idosos com idades mais avançadas, aspectos de uso do tempo livre, engajamento altruístico, participação religiosas tem maior valor. Estes dados indicam que ocorre um deslocamento da racionalidade individual com o avanço da idade sobre impulsos direcionados a competição, poder e sucesso.
É possível que com a manutenção do bom humor, seja possível trazer a vida para mais próximo de si mesmo e desfrutar, desta forma, o que ainda é possível e resignar-se com as coisas que não são mais possíveis de serem mudadas.
A exequibilidade e aplicabilidade de propostas de aconselhamento por si só não garantem um envelhecimento positivo, mas podem dar suporte ao desenvolvimento intencional pessoal, e desta maneira mobilizar recursos de desenvolvimento pessoal ainda disponíveis e não aproveitados (Gräser 2012).

2.2.3-Prevenção de doenças corporais

Prevenção é um dos pilares do sistema de saúde e apoia-se crescentemente sobre o foco da atenção antecipada em relação a ocorrência de efeitos de doenças. Em uma sociedade em que ocorre um aumento no prolongamento do curso de vida, a prevenção passou a desempenhar um papel significativo no controle das consequências dos efeitos acumulativos da redução das aptidões corporais e da morbidade. Ao mesmo tempo, o avanço do conhecimento científico passou a oferecer novas oportunidades de intervenção para a aplicação de medidas de prevenção das doenças que incidem sobre o processo de envelhecimento. Em uma população de idosos há o questionamento sobre a prevenção em situação de pessoas com idades avançadas, de como estas medidas precisam ser adaptadas, dimensionadas e avaliadas cientificamente.
Em uma sociedade que avança em idade surge naturalmente uma elevação da ocorrência de doenças crônicas e cujos efeitos são passíveis de redução através de medidas de prevenção. Na Alemanha, em grupos de pessoas com 65 anos por exemplo, a prevalência de doenças do coração (cardiopatias) e do aparelho circulatório (infarto, angina, trombose coronária) é de 19,1% em mulheres e em homens 28,3%. Para Diabetes mellitus tipo II a ocorrência é de 17,4% para mulheres e 18,72% para homens. A gravidade da incidência destas doenças pode ser influenciada por medidas de prevenção, a qual passou a ser um importante recurso da medicina para o sistema de saúde. (Diabetes mellitus tipo II é um distúrbio metabólico caracterizado pelo elevado nível de glicose no sangue no âmbito à resistência à insulina e pela insuficiência relativa à insulina. O tratamento é feito por exercícios físicos e alterações na dieta).
Enquanto as doenças são tratadas por medidas curativas, o princípio da prevenção é buscar evitar doenças, antes que estas venham a incidir sobre o indivíduo. A prevenção está focada no conceito de precaução e na promoção da saúde, o que significa a tomada antecipada de medidas que controlem os riscos decorrentes da incidência de doenças. A promoção da saúde, por sua vez, está ligada ao conceito de prevenção, por concentrar-se no desenvolvimento de recursos ligados à saúde, os quais, possam reduzir os riscos de incidência de doenças. Com o avanço da idade o significado da saúde desloca-se de um conjunto de doenças conhecidas para a intensidade com que afetam as capacidades funcionais e com isto, também, os objetivos e critérios de sucesso da prevenção. Assim, pessoas em idades avançadas que são atingidas por multimorbidade, passam a ser tratadas não apenas por único objetivo preventivo. Possíveis objetivos passam a ser o adiamento de efeitos de doenças, a obtenção de um grau mais ameno ou uma menor cronificação, um retardamento de perdas degenerativas durante o ciclo da doença e sobretudo, obter menores restrições funcionais e um maior estado de bem-estar, apesar da incidência de múltiplas doenças.
Na prevenção primária, existe para a pessoa com elevado tempo de vida, um grande número de medidas médicas, como no caso de intervenções medicamentosas. Ao mesmo tempo, acentua-se para cada medicamento usado a possibilidade de efeitos colaterais indesejáveis por interações entre medicamentos. Resulta que, para cada recomendação medicamentosa, deve-se tomar preventivamente em consideração as prioridades relacionadas ao seu uso, baseadas em dados substanciais de estudos clínicos e epidemiológicos, os quais precisam estar disponibilizados para os clientes. Um grande leque de medidas de prevenção faz com que se torne necessário uma avaliação das medidas de prevenção. É preciso decidir se, como e para quem uma medida de prevenção é efetiva. Assim a efetividade deveria ser definida por resultados de estudos científicos associados clinicamente e orientados para um indivíduo específico para que se possa obter respostas relevantes. Além da efetividade, a capacidade de atuação deveria ser pesquisada para que medidas de prevenção sucessivas sejam melhoradas quanto a sua efetividade. Além disto, deveria também atuar para indivíduos de subgrupos relevantes de idosos. Deveria ainda ser considerada a necessidade de priorização e aspectos de economia da saúde como custos e benefícios da prevenção.
As especificidades da prevenção no envelhecimento precisam ser avaliadas por sua efetividade e poder ser adaptadas a subgrupos de idosos, como por exemplo, diabéticos, pessoas com restrições cognitivas, condições restritivas ligadas a barreiras ambientais, estilo de vida e características positivas e negativas do próprio envelhecimento que podem apresentar grande significado na tomada de decisão sobre adoção de medidas de prevenção. A heterogeneidade do envelhecimento precisa estar incluída neste cálculo.
A prevenção de quedas é relevante para pessoas com idades avançadas, e cujo objetivo é, por um lado minimizar sua ocorrência e por outro lado eliminar consequências de tratamento posterior. Existem amplas possibilidades de medidas de prevenção relacionadas ao uso do espaço privado e espaço público. No campo da fisioterapia é possível adotar medidas de treinamento para um melhor balanço do equilíbrio corporal, e exercícios físicos, e o medo de quedas precisa ser trabalhado psicologicamente. Boa percepção visual precisa ser promovida através de exames preventivos e uso de equipamento ótico. Além disto, medicamentos devem ser avaliados em relação a seus efeitos sobre o equilíbrio e sobre a necessidade de complementação nutricional para reforço da estrutura óssea através da suplementação de Cálcio e Vitamina D3.
Diversos objetivos preventivos de saúde são alcançados através da adoção regular de exercícios físicos. A atividade corporal atua no adiamento e redução de doenças coronárias, diabetes, na melhoria da saúde funcional, reduze o risco de quedas, retarda a desconstrução cognitiva e leva a uma melhor qualidade de vida. Para a elevação do nível de atividades físicas corporais em idosos podem ser adotadas diversas estratégias como o reforço na participação de grupos praticantes oferecidos pela comunidade, hábito de deslocamento a pé e a realização de caminhadas. Facilitar o acesso à informação e educação para a saúde, através de livros e palestras é considerado um primeiro passo como uma medida preventiva. Um segundo passo para modificação do comportamento sedentário é a reconstrução de competências para um estilo de vida ativo na busca da autossuficiência e auto regulação (Gellert & Hermann, 2012).
Após dezenas de anos, uma evolução recente de nosso conhecimento sobre o aparelho digestivo, revela que o nosso aparelho digestivo é o centro que governa nossa vida. Influencia o sistema nervoso o aparelho circulatório e o sistema imunitário através de nossa microbiota intestinal, o que resulta em efeitos relevantes no processo de envelhecimento. Isto deve levar a uma profunda reflexão sobre a nossa conduta na forma de como orientamos a nossa alimentação (Abdoun et al, 2016).

2.2.4-Prevenção da demência

A identificação de fatores de risco e de ganhos de proteção no caso de doenças que levam a demência, tem um grande significado social, em razão do crescimento significativo de sua prevalência no grupo de pessoas que alcançam idades avançadas. Nesta abordagem são destacados recursos de intervenção, sobretudo no campo do curso de vida individual, aos quais são adicionados resultados e conceitos atuais da pesquisa da Teoria sobre Reservas Cognitivas. Aborda uma revisão sobre os fatores de risco e medidas de proteção de doenças demenciais e o conhecimento sobre os fatores de risco que são relevantes para a implantação exitosa de medidas de prevenção.
A prevenção da demência vem se tornando de importância crescente no debate da saúde. Com fundamentação no alongamento do tempo de vida e da mudança do perfil populacional, no futuro irá aumentar a incidência de doenças degenerativas. Este fato salienta a enorme importância do reconhecimento e desenvolvimento de métodos de prevenção, o mais precocemente possível, para que se possa promover intervenções que tragam ganhos sobre o controle da demência.
Pesquisas indicam que 60 a 70% de todas as causas de demência são decorrentes da doença de Alzheimer (DA), pela qual ocorre um lento e progressivo padecimento da perda das atividades cognitivas. No entanto, é possível reconhecer com antecipação de 10 anos a sua predisposição em indivíduos, enquanto ainda a pessoa não está comprometida por deficiências de autonomia, e mesmo em idosos jovens já é possível detectar deficiências cognitivas ligadas a doença.
O déficit cognitivo individual resulta, não diretamente como consequência de modificações neurológicas, mas são moduladas em seu percurso através de diferentes fatores. Com base neste conhecimento o estudo epidemiológico tem seu foco voltado para a identificação de fatores de risco e de proteção que atuam na incidência da demência.
A capacidade funcional do cérebro humano, a influência de danos neurológicos, e um determinado grau reações compensatórias, estão alicerçadas sobre o conceito de reserva cognitiva. Este conceito orienta-se através da observação clínica de que o dano cerebral, em determinada medida, não é possível de ser caracterizado, e denota uma elevada variação entre indivíduos. Em pessoas falecidas em decorrência da DA foi observado que modificações cerebrais não apresentaram deficiências cognitivas ao longo do tempo de vida. Apesar de modificações patológicas do cérebro, isto não conduziu ao diagnóstico de uma sintomatologia clínica. Em estudos subsequentes foi demonstrado que pessoas com atrofias relevantes não foram afetadas clinicamente da mesma maneira que pessoas com atrofias cerebrais menores. Isto resulta na compreensão de que ocorre uma capacidade individual de compensação na atividade cerebral em pessoas afetadas pela DA. Decorre destas constatações, que tanto em idosos jovens com em idades avançadas há a possibilidade de serem influenciados recursos individuais cerebrais de forma prolongada.
A reserva cognitiva e sua função compensatória é influenciada por diversos fatores como características individuais, nível de atividade cerebral e formação educacional, mas apesar de pesquisas intensivas, ainda não há consenso sobre exatamente quais fatores afetam a reserva cognitiva e como eles interagem.
Apesar de diferenças individuais, as deficiências cognitivas em relação a doenças da mente estão baseadas fundamentalmente sobre modificações do cérebro. Para estas modificações contam a formação e destruição de placas amiloides, uma redução de sinapses e a degeneração de neurônios. Ao lado da ação direta de fatores de risco sobre a função cerebral, são relatados efeitos indiretos de risco e de proteção, cujo comportamento pode influenciar, ou não influenciar o desempenho cerebral.
Entre os fatores indiretos não influenciáveis contam a fase em que se encontra o indivíduo no curso de vida, a predisposição genética e doenças corporais. A demência está altamente correlacionada com o tempo de vida. Enquanto no grupo de faixa etária de 65 a 69 anos, apenas 1% dos indivíduos são afetados por doenças demenciais, após 90 anos de idade, 35% das pessoas são atingidas. Os dados também demonstram que as mulheres, de um modo geral são mais afetadas que os homens, o que decorre do fato de que elas alcançam um maior tempo de vida, compondo a maioria dos pacientes sob tratamento no grupo DA.
Entre os fatores diretos influenciáveis contam o hábito do uso de estimulantes como álcool, cafeína, nicotina e o padrão nutricional. Outros fatores que são incluídos são o tipo de formação educacional bem como o nível de atividade cognitiva e corporal.
Enquanto que um consumo crônico e desmesurado de álcool pode afetar continuamente a capacidade funcional do cérebro, alguns estudos também indicam uma função de proteção sobre a capacidade cognitiva de idosos, quando o consumo de álcool é leve e comedido. No entanto estes resultados não permitem ainda considerar que possa ser incluída como uma medida primária de prevenção.
Os resultados atuais do consumo de cafeína indicam uma interligação positiva entre o seu consumo e uma redução do risco de demência, embora não possa ser classificada como uma medida preventiva.
A interação entre o consumo de nicotina e o desenvolvimento cognitivo está bem caracterizada como fator de risco individual.
Com base em pesquisas científicas não é possível estabelecer uma relação clara sobre a influência de hábitos alimentares sobre riscos a doença de DA. Estudos consideram que uma dieta com alto conteúdo de gordura e colesterol, bem como sobrepeso elevam o risco. Neste sentido a dieta mediterrânea, baseada no consumo regular de frutas, legumes, peixe e produtos alimentares ricos em Ômega 3, são considerados redutores de risco.
Um grande número de estudos tem constatado que existe uma interação forte entre o nível de capacitação cognitiva e a incidência de DA. A incidência e a prevalência em pessoas com elevado nível de formação são significativamente mais baixas que em pessoas com baixo grau de escolaridade. Uma função protetiva decorrente de atividades dedicadas ao uso do tempo livre estimuladas cognitivamente puderam ser estabelecidas em diversos estudos epidemiológicos. Diversos estudos epidemiológicos partem da hipótese de que a atividade corporal regular possa retardar o início da incidência de DA, o que, no entanto, ainda não foi comprovado como efeito protetivo.
Na prevenção de doenças que levam a demência o conhecimento preciso dos fatores que podem exercer influência sobre as causas da doença são de grande significado. Uma prevenção otimizada, situa-se tanto quanto possível na desativação dos fatores de risco conhecidos e ativação dos fatores de proteção disponíveis. São considerados com grande relevo na prevenção o nível de formação educacional, o status sócio econômico, a atividade cognitiva e a atividade corporal. Os resultados de pesquisas confirmam que podem ser utilizados recursos implicados na reserva cognitiva que oferecem funções protetivas sobre a evolução da demência, tanto a nível individual como em pessoas com idades avançadas (Sattler, Wendelstein & Schöder, 2012).

2.2.5-Prevenção de doenças psíquicas

Cerca de um quarto de pessoas com 65 anos ou mais é atingida por doenças psíquicas. Ao lado de serem afetadas por deficiências cognitivas leves e quadros de perturbação por demência, ocorre sobretudo a depressão, perturbações do sono e doenças que decorrem de efeitos de dependência do consumo de substâncias que podem causar efeitos corporais danosos. No grupo de pessoas idosas apresenta-se também dificuldades de que seja efetuado um diagnóstico preciso de causas específicas, sobretudo em caso de manifestações depressivas, que podem resultar de múltiplos fatores incidentes.
A prevenção exitosa de doenças psíquicas requer a participação de um trabalho integrado de profissionais de diferentes especialidades e depende para sua aplicação, em muitos casos, de facilidades financeiras individuais e de acesso a estruturas institucionais adequadas. Com avanço do tempo de vida, medidas preventivas passam a representar uma importante contribuição ao sistema de saúde. Não somente a indivíduos idosos em si, mas também, para a sociedade como um todo, pelo ônus social que representa a capacidade de financiamento do tratamento de doenças psíquicas.
A prevenção de doenças psíquicas assume relevância pelo alongamento do tempo de vida e mudança demográfica. Estudos epidemiológicos indicam que um quarto da população da Alemanha padece de algum tipo de perturbação psíquica. Embora a demência esteja associada a pessoas com alto grau de envelhecimento, a incidência da depressão, suicídio, perturbações do sono e doenças resultantes de dependência de drogas não pode ser subestimada. Perturbações individuais e doenças decorrentes da esquizofrenia são menos relevantes em grupos de idosos.
A redução da prevalência de doenças psíquicas que atingem a fase de envelhecimento necessita de conhecimentos sobre fatores de prevenção do risco e de proteção, bem como, do desenvolvimento de programas de prevenção orientados para grupos de risco. Neste aspecto podem ser feitas diferenciações entre medidas de prevenção primária, secundária e terciária.
As medidas de prevenção primária têm por intenção evitar o surgimento de novas doenças neurológicas e lançam seu foco sobre a população em geral. Buscam medidas de prevenção que possam evitar ou reduzir os fatores de risco e promover fatores de proteção que controlem a sua ocorrência. A aplicação de medidas de prevenção secundária baseia-se na intervenção precoce sobre uma população de risco e objetiva impedir a manifestação da doença. Com a ajuda de medidas de prevenção terciária é buscado eliminar uma determinada perturbação específica ou adotar providências que minimizem ou venham a causar novos danos funcionais. A seguir são abordados fatores de risco e aspectos de prevenção indicados em quadros de doenças não demenciais.

2.2.5.1-Perturbações depressivas

É constatado que frequência de doenças depressivas não aumenta em estados avançados do envelhecimento. No entanto é verificado que a prevalência é de nível mais baixo em ambiente residencial (0,9% a 9,4%) e maior em contexto institucional (14% a 42%) e que ao longo do curso de vida ocorre uma prevalência de 9,5% em pessoas com idades de 61 a 65 anos.
Os preditores mais importantes para perturbações causadas pela depressão estão ligadas ao gênero feminino, doenças somáticas, danos funcionais e cognitivos, perda de ânimo para contatos sociais e histórico de depressões precedentes. São também incluídas como causadoras de perturbações depressivas individuais, doenças neuróticas e o medo e perturbações causadas por dependência de drogas.
A depressão no envelhecimento está associada a uma elevação da morbidade (conjunto de causas capazes de produzir uma doença), e mortalidade associada ao risco de suicídio. Isto restringe a qualidade de vida de forma elevada e coloca uma sobrecarga para a família, para a sociedade, bem como sobre toda e economia social e institucional.
O diagnóstico da depressão em idosos é dificultado pela dissimulação e comportamento que pode mascarar sua presença. Isto pode levar a um insuficiente reconhecimento de suas causas e a um tratamento adequado.
Na prevenção é importante considerar, ao lado de aspectos corporais, psicológicos, sociais e ambientais, também aspectos comportamentais. Situações de perdas individuais podem ser importantes no tratamento. A perda de familiares e pessoas da rede social, a perda de papéis sociais e profissionais, bem como a redução de capacidades funcionais corporais, que afetam a autonomia, podem influir no desenvolvimento da depressão. Junto com estes fatores pode ainda estar contribuindo a inatividade, a baixa disposição para atividades corporais, a perda de perspectivas futuras e a redução da autoconfiança. Na prevenção primária e secundária, tem que ser considerado também, que rupturas e perdas sociais são frequentemente fatos, que possibilitam acertos na adoção de medidas de tratamento para solucionar doenças depressivas.
Um dos objetivos da prevenção psicológica primária na depressão é a adoção de estratégias e competências que possam combater as condições que agem como sobrecarga na vida individual e afetam a autoconfiança. Pertence a esta categoria de tratamento, por sua efetividade, métodos psicológicos e psicoterapia interpessoal, bem como terapia cognitiva. Psicoterapia é o tratamento de doenças e problemas psíquicos que utiliza em geral técnicas sugestivas, persuasivas, reeducativas, relaxantes.
Sob o conceito de medidas primárias sociais, são entendidas todas as medidas que atuam contra o isolamento social. Nela a manutenção e a reconstrução de uma nova rede social tem um papel especialmente importante. Ofertas de apoio e aconselhamento, como grupos de ajuda, deveriam estar próximos aos locais de moradia e poderiam ser disponibilizados em centros comunitários públicos. Neste campo de intervenção situam-se medidas que atuam contra o isolamento social, que agem na construção de uma nova rede social, como no caso de comunidades que elegem morar em condomínios residenciais para idosos.
Ao lado de aspectos psicossociais, deve ser considerada a prevenção primária somática (que diz respeito ao corpo). Pesquisas neuropsiquiátricas mostram que modificações morfológicas cerebrais tardias devem ser consideradas pela possibilidade de poder ter levado a modificações cérebro vasculares. É particularmente importante caracterizar fatores de risco que influenciam como pressão arterial elevada, excesso de peso, tabagismo e falta de exercícios corporais.
Nutrição rica em colesterol, gorduras e álcool, em quantidades elevadas deve ser evitada, é recomendado o consumo regular de frutas, verduras e peixes.
Os sintomas de depressão podem também decorrer de um efeito colateral do uso de numerosos medicamentos prescritos, como por exemplo para doenças cardiovasculares, devendo ser reavaliada a sua indicação no sentido da possibilidade de uma redução da sistemática de seu uso. Para isto, uma adequada farmacoterapia desempenha um papel importante de controle da polifarmacia.
A prevenção secundária da depressão em idades avançadas comporta o reconhecimento e tratamento precoce e a delimitação das diferentes causas que influem na sua manifestação, o que favorece um tratamento antecipado que pode reprimir a forma somatizada da depressão.
A intervenção precoce na depressão através de medidas terapêuticas é importante, não apenas para evitar sua cronificação, mas também pela elevada propensão ao suicídio e mortalidade neste grupo de pacientes. Na prevenção terciária da depressão em idosos é também considerada a profilaxia medicamentosa como por exemplo através do uso de estímulo a neurotransmissores que agem na produção de serotonina e de lítio.

2.2.5.2-Perturbações do sono

Estudos epidemiológicos mostram que perturbações do sono aumentam com o avanço da idade, afetam um quarto da população de idosos e que mulheres são mais afetadas que homens. Com o avanço da idade eleva-se também a ocorrência de problemas decorrentes de doenças corporais e psíquicas que passam a afetar o sono.
Doenças que afetam o aparelho circulatório, do estômago, sistema digestivo e doenças crônicas atuam negativamente sobre a qualidade do sono. Também o consumo de substâncias como o álcool, cafeína, psicofarmacos e medicamentos de controle da pressão arterial podem conduzir a insônia ou a sonolência. Além disto, perturbações do sono estão também influenciadas por doenças psíquicas como depressão e demência, fatores ligados a natureza comportamental como stress, excitação, falta de exercício e hábitos de sono inadequados. Muitas vezes o tratamento da insônia é efetuado por terapia medicamentosa através da ingestão de medicamentos que causam sono e atuam de forma rápida, embora esta terapia esteja ligada a desvantagens, como sobretudo o desenvolvimento de tolerância, dependência, modificação da estrutura do sono, alteração do humor, fadiga matinal.
A psicoterapia e prevenção estão focadas em medidas psicoeducativas que incluem o esclarecimento e aconselhamento sobre a higiene do sono e com o apoio de técnicas de descontração e exercícios corporais regulares.

2.2.5.3-Dependência de medicamentos e drogas

O estudo do uso inadequado de medicamentos e álcool por idosos precisa ser avaliado e mostra que um terço dos medicamentos prescritos acabam sendo usados fora das prescrições. Neste grupo incluem-se tranquilizantes, antidepressivos e para indução do sono, que são adotados como consequência de perdas afetivas, redução de aptidões funcionais e solidão. Cerca de 24.6% de pessoas com 70 anos ou mais são tratadas com psicofarmacos, destacando-se a prevalência (13,2%) de Benzodiazipina.
A prescrição de psicofarmacos é muitas vezes indicada genericamente para tratamento de perturbações não claramente especificadas, mas deveria estar verificada por exigência médica obrigatória relacionada a sensibilização e dependência.
Para pessoas envelhecidas devem ser prescritas doses reduzidas e devem ser monitorados, por precaução, as funções corporais, como fígado, rins e coração.
O uso abusivo de medicamentos múltiplos pode conduzir a uma reação adversa acumulada e mesmo conduzir ao falecimento. O grupo de idosos mais afeto ao uso de Benzodiazipina forma a maior população dos asilos, nos quais prevalece a internação de longa permanência. Na perspectiva da prevenção é de se recomendar que a indicação de psicofarmacos esteja incluída em um contexto de tratamento psicoterapêutico, de forma que o uso de componentes farmacológicos esteja associado a componentes psicoterapêuticos e psicológicos.
Após 2011, os médicos franceses vêm trabalhando sobre uma lista de medicamentos considerados “essenciais” para a saúde da população. 150 a 200 vem sendo avaliados como o número necessário e suficiente para tratar 95% das doenças que ocorrem na França. É uma proposta provocante em um país onde mais de 5.000 medicamentos são disponibilizados, sob mais de 15.000 formas diferentes, e onde o consumo de medicamentos é 40% superior aos principais países vizinhos da Europa. Pela primeira vez, as agências sanitárias serão obrigadas, pela lei, a fazer uma triagem entre todos os medicamentos, que são considerados essenciais para a boa saúde, e os supérfluos. Milhares de medicamentos não servem para nada (Tourbe & Rambert, 2015).
A prevalência do alcoolismo em idosos, apesar de baixa, por condicionar um tempo de vida mais curto, atinge assim mesmo, 3% em homens com 65 anos ou mais e 0,5% em mulheres. Condições de abuso do uso de álcool por homens com 70 anos ou mais chega a 24% e em mulheres 2,10%.
A maioria dos idosos, passam apenas a depender do álcool após 60 anos de idade. É considerado que, como no caso da depressão, intervenções psicológicas, sociais e somáticas, estas possam atuar em conjunto na indução da dependência do álcool. A prevenção ainda está pouco apoiada em conhecimento científico. Para a mudança do hábito, embora pouco eficazes, são adotadas medidas de aconselhamento, grupos de autoajuda e otimização do ambiente social. Rupturas críticas como a morte de pessoas próximas pode levar a uma modificação do comportamento de consumo e desenvolver dependência, assim como perdas funcionais, desgaste dos recursos corporais e depressão. Nestas condições é indispensável realizar, com precedência, um diagnóstico para introduzir terapias que possam ser efetivas. Intervenções que são comumente recomendadas são o aconselhamento, a participação em palestras, a otimização do ambiente social.
Por outro lado, pessoas que adquirem dependência mais tardiamente no curso devida, são caracterizadas por sua maior integração social, e com isto, apresentam uma maior estabilidade de sua estrutura pessoal, resultando em menor sucesso no tratamento da dependência de álcool. Nestes casos é recomendado que sejam adotadas medidas que possam controlar o seu uso abusivo em vez da supressão do seu consumo social (Kuzma, Pantel, & Schröder, 2012).

2.2.6- Prevenção do Suicídio

Em todos os países o número de suicídios em idosos é elevado. Como fatores predisponentes de risco para uma tentativa de suicídio após os 70 anos de idade, contam sobretudo pessoas que vivem só, baixo nível de formação escolar, tratamento pregresso psiquiátrico, tentativas precedentes, doença depressiva e psíquica, mau uso de substâncias, sofrimento corporal e isolamento social. O objetivo da prevenção do suicídio situa-se no tratamento através de apoio sistematizado e terapia que vise a minimização da pressão dos fatores predisponentes, a melhora do ambiente social, fortalecimento dos recursos individuais e o reforço de medidas psicoeducativas.

2.2.6.1-Suicídio na população idosa
Uma grande parte das pessoas idosas manifesta um crescente sentimento de perda de ânimo ou uma forte experiência emocional ligada a perda de recursos, que se torna resistente e ao mesmo tempo, a população idosa apresenta, em dois terços dos países, níveis mais elevados de suicídio que em outros grupos humanos. Dados estatísticos da Alemanha de 2006 indicam que o suicídio em homens com 60 anos ou mais chega a 22,1%, e em mulheres alcança 27,8% do total de pessoas suicidas. Em mulheres com 70 anos ou mais o número chega a 32%, e 23,6% em homens. Estes números, no entanto, podem ser maiores que os indicados pelos dados oficiais, já que a motivação para o suicídio em idades avançadas é maior. Como métodos de suicídio são empregados mais comumente o enforcamento, estrangulamento e sufocamento, seguindo-se o emprego de armas de fogo por homens e envenenamento por mulheres (Kessler, 2012).

2.2.6.2-Prevenção primária, secundária e terciária
Condicionado pela a mudança demográfica, persiste o risco, de que no futuro o número absoluto de suicídios de pessoas idosas venha a se elevar. Esta tendência mostra que a prevenção do suicídio em idosos venha a se tornar uma importante política pública de prevenção da área de saúde, bem como uma exigência de terapêutica individual.
Em princípio são distinguidos três tipos de medidas possíveis de prevenção designadas como primária, secundária e terciária.
A prevenção primária do suicídio tem por alvo impedir, evitar, uma primeira tentativa de suicídio através de um espectro diverso de medidas preventivas, como por exemplo, através da melhoria da estrutura psicológica, psiquiátrica, de cuidados a idosos, através de campanhas de esclarecimento na mídia e sobre a limitação da disponibilidade de meios que podem ser usados para o ato suicida. São medidas que se situam primariamente no campo das políticas públicas de saúde.
A prevenção secundária baseia-se no reconhecimento e tratamento de pessoas propensas a cometer suicídio. O objetivo é, em uma situação individual de crise (para pessoas que estão afetadas por doenças psíquicas ou que tenham um histórico de tendência ao suicídio), reconhecer e reduzir o risco de comportamento suicida através de adequado aconselhamento, supervisão e medidas de tratamento.
A prevenção terciária tem por alvo (em pessoas que já tentaram procedimentos de suicídio) introduzir um tratamento ótimo e melhorar com isto a sua prognose (conhecimento antecipado).
Tanto na prevenção secundária como na terciária, desempenham uma função central psicólogos, médicos, profissionais do serviço social e pessoas ligadas a serviços de cuidados a idosos. Dentro destes critérios de abordagem é possível adotar medidas de prevenção de forma geral, seja seletiva para grupos de risco (pacientes em instalações geriátricas) ou para pacientes individuais que manifestem tendências suicidas.

2.2.6.3-Formas de expressão do suicídio
Para a expressão do suicídio contribuem o tédio (a vida não é mais considerada como um valor), desejo de morrer (pensamentos de morte, querer morrer), bem como tentativas anteriores de suicídio. Pode influir primariamente o avanço de perdas funcionais, a perda de autonomia. Em idosos é também frequente que ocorram comportamentos passivos ligados ao desânimo como o desinteresse pela alimentação e consequente desnutrição, omissão do uso de medicamentos e o não cumprimento de prescrições médicas.
A psicologia da morte descreve um conceito no qual é considerado que a pessoa, na verdade deseje realmente não mais continuar a viver, que não deseja mais conduzir uma vida prolongada difícil, influenciada por condições como a morte do parceiro ou perdas funcionais graves. Apoio profissional frequentemente subestima o risco de suicídio em idosos, mesmo quando ocorre através de contato frequente com o paciente. Ao lado da falta de qualificação no campo do reconhecimento do suicídio, é também constatado que pessoas idosas, que tem a intenção de suicídio, raramente manifestam esta intenção.
Em pacientes idosos, que se submetem a tratamento psicológico, o número de ocorrências é significativamente mais baixo. Para avaliação da predisposição ao suicídio, os psicólogos e médicos dispõe de sistemas de entrevista e de questionamentos como por exemplo o “Geriatric Mental Status Interviews”.

2.2.6.4-Fatores de risco
Os fundamentos para introdução de medidas preventivas de suicídio em indivíduos idosos precisam estar baseados em dados de pesquisas médicas, psicológicas, epidemiológicos. No entanto, ainda existe pouco conhecimento sobre as interações complexas dos fatores de risco e fatores protetivos da etiologia (estudo das causas das doenças) da propensão suicídio. Todos os estudos realizados internacionalmente caracterizam que, além de um histórico biográfico de tentativa de suicídio, perturbações afetivas são o principal fator de risco para todas as formas de suicídio em idosos.
Em estudos sistemáticos realizados ficou evidenciado que em 86% das pessoas idosas que se envolveram em tentativas de suicídio, houve uma motivação por uma perturbação afetiva (sobretudo depressão). Apesar da pouca consistência dos dados, pode-se afirmar que, multimorbidade, restrições funcionais, fracas perspectivas de cura de doenças e dores contínuas elevam significativamente a tendência ao suicídio.
Contribuem neste sentido a perda de esperança, a ausência de sentimentos positivos, a consciência sobre a limitação do tempo de vida, além do sentimento da falta de apoio de outra pessoa, em geral familiares.
A viuvez é um fator de risco elevado em homens com idade avançada. Contribuem neste sentido a perda de esperança, a ausência de sentimentos positivos, idade avançada, além do sentimento da perda da pessoa mais próxima. Para o desenvolvimento de medidas preventivas, faltam ao lado do conhecimento sobre fatores, psiquiátricos, médicos, dados de pesquisa sobre fatores de risco psicológicos e psicossociais, e que são fundamentais para o delineamento de medidas de intervenção.

2.2.6.5-Campos de intervenção
Medidas concretas de prevenção do suicídio em pessoas idosas podem ser direcionadas a três áreas, no campo social, campo da informação e educação e na melhoria do setor de cuidados a idosos, para as quais são indicados programas de prevenção.
No campo social, da política de apoio a idosos e estruturação de condições amigáveis a idosos situam-se primariamente medidas na esfera da saúde e de política social. Além disto devem ser consideradas medidas contra a discriminação de idosos, na promoção da integração social, através de projetos intergeracionais.
No campo da informação, esclarecimento e educação a finalidade é a orientação sobre a mudança de conduta da população, bem como na formação de recursos humanos especializados para lidar com a problemática do suicídio. Incorpora medidas de implementação de políticas sociais focadas na informação e esclarecimento da população em geral sobre os riscos de suicídio no envelhecimento, na desconstrução de falsos conceitos ligados a tolerância do suicídio de idosos. Uma medida relevante é a inclusão do tema em currículos de cursos ligados à saúde.
No campo da melhoria da estrutura do setor de cuidados a idosos, da medicina psicossocial que se orienta sobre a implantação de serviços itinerantes de apoio a idosos, que possam atuar no controle de crises e estejam ligados a redes locais e regionais de serviços de saúde. Particularmente relevante é a intensificação da organização de serviços de aconselhamento gerontopsiquiátrico e clínicas que ofereçam cuidados psicoterapêuticos mais robustos para idosos. Pessoas que atuam continuamente em contato com idosos podem ser orientadas sobre o reconhecimento precoce de pessoas com tendências suicidas e que poderiam estar integradas aos programas de serviços psicoterapêuticos e de cuidados a idosos (Kessler 2012).

2.2.6.6-O suicídio como uma doença
Segundo Barnéoud (2015) o suicídio encobre uma verdadeira doença. Adversidade social, problemas psicológicos, mas não somente estes, por baixo da decisão do ato escondem-se também predisposições biológicas, uma descoberta que muda a visão do flagelo. Segundo a autora, mais de 80.000 pessoas suicidaram-se no mundo em 2012 (OMS). A mortalidade masculina por suicídio ocorre de maneira generalizada com exceção da China. Na França, embora com esperança de vida elevada, também manifesta uma taxa de suicídio entre as mais elevadas da Europa (uma morte em 50). Em um recente estudo do Inserm (Institut National de la Santé et de la Recherche Medicale – France), mostrou que a taxa de mortandade por suicídio aumenta com a taxa de desemprego. No entanto, se as dificuldades sociais contam para o ato, muitas pessoas que vivem em situações difíceis não se suicidam, colocando a questão de uma possível predisposição biológica para o suicídio.
O suicídio passou a ser considerado como um fato social pela publicação do livro “Le Suicide” do sociólogo Durkheim em 1897, que descreveu o fato, de que certas tentativas contra a vida se deviam essencialmente em razão de fatores exteriores ao indivíduo, professionais (desemprego e assédio) ou afetivos (divórcio, rupturas, perdas de pessoas próximas).
Posteriormente a medicina constatou que 90% das pessoas que se suicidavam sofriam de alguma doença mental, sobretudo depressão (doença psiquiátrica, crônica, recorrente, que produz uma alteração do humor, caracterizado por uma tristeza profunda, sem fim, associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima, culpa, assim como distúrbios do sono e apetite), mas também esquizofrenia (doença psiquiátrica endógena que se caracteriza pela perda do contato com a realidade) e problemas bipolares (doença psiquiátrica caracterizada pela alternância de períodos de depressão e hiperexcitabilidade ou mania). Constataram também que menos de 20% das pessoas atingidas por tais problemas passavam finalmente ao ato. Isto levou a constatação de que a adversidade social e os problemas psicológicos são duas condições necessárias, mas não suficientes para que ocorra o ato.
Mais recentemente, pelo avanço das neurociências, da biologia molecular e da genética, os conhecimentos revolucionaram a compreensão do suicídio, pois elas indicam que seria uma doença biológica por inteiro. Vulnerabilidade para as condições de suicídio permitiram aos pesquisadores e numerosos médicos estimar que somente as pessoas portadoras de uma certa vulnerabilidade de origem biológica se suicidam (Barnéoud, 2015).

2.2.7-Fontes de consulta
ABDOUN,P,E, BETTAYEB,A,K, GRACCI,F & RAMBERT,H. Les super-pouvoirs du ventre. In: Cience & Vie, Mondadori France, nº 1183, avril 2016, pg 49BARNÉOUD, L. Suicide, il cache une vraie maladie, In: Science & Vie, Avril 2015, nº 1171, France, Mondatori, page 86.

KESSLER,E,M. Suizidprävention. In: Wahl,H,W, Römer,C,T, & Ziegelmann,J,P. Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012 KUZMA,E, PANTEL,J & SCHRÖDER,J. Prävention psychischer Krankheiten im Alter. In:
Wahls,,H,W, Römer,CT & Ziegelmann,J,P. Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

GELLERT,P. & HERRMANN,W,J. Prävention körperlicher Erkrankungen. In: Wahl,H,W, Römer,C,T, & Ziegelmann,J,P. Angewandte Gerontologie,Stuttgart,Kohlhammer,2012 GRÄSER,H, Entwicklungsberatung, In: Wahl,W,H, Römer,T,C, & Ziegelmann,P,J, Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

SATTLER,C, WENDELSTEIN,B, & SCHRÖDER,J. Prävention dementieller Erkrankungen Im Alter. In: Wahl,H,W, Römer,C,T & Ziegelmann,J,P. Angewandte Gerontologie Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

SCHÜZ,B, & ZIEGELMANN,J,P. Formen und Bedeutung von Prävention, In: Wahl,N,W, Römer,T,C, & Ziegelmann,J,P. Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

TOURBE, C. & RAMBERT,H. Des milliers de médicaments ne servente à rien. In Science & Vie, Mondadori France, nº 1171, avril 2015.

WELTGESUNSHEITORGANIZATION. Gesunheit 21 – Gesunheit für alle im 21. Jahrhundert. Kopenhagen: Westgesundheitorganization Regionalbüro für Europa.


Sobre o autor:

Nelson Frederico Seiffert

Doutor em Engenharia de Produção, com a tese de Doutorado sobre Gestão Ambiental. Trabalhou em Pesquisa na EMBRAPA durante 25 anos.

Desenvolve atualmente estudos na área de Gerontologia Ambiental e Aplicada. Conduziu Seminários sobre Gerontologia Ambiental e Aplicada no NETI/UFSC em 2015, 2016 e é Diretor Técnico Científico da ANG/SC – GESTÃO 2017/2019.

E-mail: [email protected]

Artigos de Associados

Recursos individuais e diagnóstico geriátrico

2.1 RECURSOS INDIVIDUAIS E DIAGNÓSTICO GERIÁTRICO

Nelson Frederico Seiffert

 

2.1.1-Envelhecimento uma experiência subjetiva

Mas como definir o envelhecimento? Em sociologia e demografia o envelhecimento corresponde a períodos do curso de vida, algumas vezes arbitrários, algumas vezes baseados em estatísticas epidemiológicas, segundo as quais, as perdas funcionais maiores surgem em média após os 80/85 anos. (Epidemiologia, ramo da medicina que estuda os diferentes fatores que intervém na difusão e propagação de doenças, sua frequência, seu modo de distribuição, sua evolução e à colocação de meios necessários para sua prevenção).A etapa da vida caracterizada perla velhice, com suas peculiaridades, só pode ser compreendida a partir da relação que se estabelece entre os diferentes aspectos cronológicos, biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Essa interação institui-se de acordo com as condições da cultura na qual o indivíduo está inserido. Condições históricas, políticas, econômicas, geográficas e culturais produzem diferentes representações sociais da velhice e também do idoso. Há uma correspondência entre a concepção de velhice presente em uma sociedade e as atitudes frente às pessoas que estão envelhecendo.
Atualmente, os especialistas no estudo do envelhecimento referem-se a três grupos de pessoas mais velhas: idosos jovens (65 a 74 anos), idosos velhos (75 a 84 anos) e idosos mais velhos (85 anos, 95 ou mais). Idosos jovens mantem-se ainda ativos, apesar de já poder apresentar, ou não, pequenas restrições corporais ou cognitivas, enquanto idosos velhos e mais velhos são segmentos que apresentam maior tendência a manifestar perdas funcionais que impõe dificuldades para desempenhar atividades comuns da vida diária. Embora esta categorização de grupos etários seja usual, as pesquisas revelam que o processo de envelhecimento é uma experiência heterogênea, vivida como uma experiência individual.
O envelhecimento aparece associado a doenças e perdas, e é a maioria das vezes entendido como apenas um problema médico, ligado à deterioração corporal e cognitiva. O avanço da idade é percebido comumente como um processo contínuo de perdas e de dependência que induz uma identidade de falta de condições, responsável por um conjunto de imagens negativas associadas a velhice.
Na realidade, existem diferentes formas de se definir e conceituar a velhice. Uma delas é a definição preconizada pela Organização Mundial da Saúde, que é baseada na idade cronológica, na qual a definição de idoso inicia-se aos 65 anos nos países desenvolvidos, e aos 60 anos nos países em desenvolvimento. O envelhecimento humano, é entendido como um processo influenciado por diversos fatores, como genética, gênero, classe social, cultura, padrões de saúde individuais e coletivos da sociedade, condições ambientais. Não pode apenas ser definido pela idade cronológica, mas pelas condições físicas, funcionais, mentais e de saúde das pessoas, o que equivale a afirmar que podem ser observadas diferentes idades biológicas e subjetivas em indivíduos com a mesma idade cronológica.
A idade biológica é definida pelas modificações corporais e mentais que ocorrem ao longo do processo de desenvolvimento e caracterizam o processo de envelhecimento humano, que pode ser compreendido como um processo que se inicia antes do nascimento do indivíduo e se estende por toda a existência humana.
A idade social é definida pela obtenção, pelo indivíduo de hábitos e status social, para o preenchimento de muitos papéis sociais, ou expectativas em relação às pessoas de sua idade, em sua cultura e em seu grupo social. Um indivíduo pode ser mais velho ou mais jovem dependendo de como ele se comporta dentro de uma classificação esperada para sua idade em uma sociedade ou cultura particular.
A idade psicológica pode ser compreendida como as habilidades adaptativas dos indivíduos para se adequarem às exigências do meio. As pessoas adaptam-se pelo uso de várias características psicológicas, como aprendizagem, memória, inteligência, controle emocional, etc.
Mas o que é o envelhecimento psíquico? Se envelhecer é sobretudo uma experiência pessoal e subjetiva, o que é então sentir-se velho? É evidente que, é menos uma questão de idade, portanto do tempo que passa, mas é por ocorrência de golpes de perda de memória e inteligência súbitos, perdas graves que atingem o indivíduo, que faz com que ele perceba sentir-se envelhecer. Eventos que fazem envelhecer referem-se sempre a perdas, luto, doenças, acidentes e rupturas. Um tempo de etapas que são passadas, que encarnam a partida das crianças de casa, a passagem para a aposentadoria, o divórcio, a morte de pessoas queridas ou alterações da própria integridade física. É por isto que a psicologia (ciência que trata do estado e processos mentais, do comportamento do ser humano e suas interações com o ambiente físico e social) procura definir a experiência de envelhecer em função das reações que provocam estas diversas experiências e perdas.
A partir destas premissas podem ser sugeridas três modalidades psíquicas, que se inscrevem de forma subjetiva no tempo que passa:
1-O avanço da idade, que é um processo permanente, que o calendário modela convencionalmente ao curso, do qual, perdas afetivas, físicas e de identidade são compensadas por ganhos simbólicos, imaginários ou reais. Maturidade, status ou novas liberdades oferecem então um sentimento de enriquecimento ou de satisfação.
2-O envelhecimento caracterizado pela falta de compensação das perdas. O sentimento de perda irremediável predomina, levando o indivíduo a se convencer que nenhuma melhora de sua situação poderá ocorrer e que toda a esperança é em vão.
3-O envelhecimento psíquico, ou se instala em uma condição duradoura de dependência que priva definitivamente o indivíduo de todas, ou parte de sua liberdade e de seu poder sobre a vida. Não somente as perdas podem não ser compensáveis e
irremediáveis, elas obrigam, daqui em diante, o indivíduo a se submeter a outro para efetuar os gestos mais habituais da vida quotidiana.
Pode-se viver longamente, isto é avançar em idade durante numerosos anos, sem necessariamente sentir-se como velho. Pode-se também sentir o envelhecimento em idades muito variáveis, desde logo que o sentimento de perdas predomine e sufoque o desejo de viver. Pode-se igualmente, tornar-se velho em idades muito diferentes, quando se instala a dependência que priva o indivíduo do poder sobre a sua vida. Pode-se ainda avançar em idades como 70, 80 e 90 anos e jamais sentir-se velho, nem mesmo envelhecendo.
É neste contexto que intervém a idade subjetiva. Os avanços de idade medidos pelo calendário e balizado pelos aniversários mostram que os sentimentos de envelhecimento não têm nada a ver com a cronologia. Pode-se envelhecer psiquicamente a 40, 50, 80 anos, e rejuvenescer subjetivamente a 50 ou 70 anos. Numerosos estudos consagrados a idade subjetiva mostram que, após atingir 30 anos, a pessoa se sente geralmente mais jovem do que realmente é. De fato, a idade subjetiva medida por diversas escalas psicológicas, mostra que ela é 10, 15, 20 anos inferior a idade cronológica. Por outro lado, pode-se perceber, quando se festeja um aniversário nos tempos de 60, 70 anos, tendemos a reaproximar a idade subjetiva com a idade cronológica, ou seja, assimilamos nossa idade real.
Pode-se, no entanto, também notar que o luto e acidentes da vida fazem envelhecer subjetivamente. Este senso de envelhecer é um sentimento subjetivo, quando uma acumulação de perdas nos lembra a realidade de nossa idade, e mesmo a percepção individual da idade subjetiva pode ultrapassa a percepção da idade cronológica.
O período de crescimento, que caracteriza a infância e à adolescência é, em princípio, feito de ganhos. A idade subjetiva é nesta época superior a idade cronológica, manifestada pelo desejo de crescer. O avanço da idade do adulto, após 30 anos caracteriza-se, ao contrário, pela necessidade de compensar perdas por meio e novos ganhos. A idade subjetiva torna-se então pouco a pouco inferior a idade cronológica, mas tendo a ilusão da juventude dentro de uma percepção modificada do tempo. O tempo parece, com efeito, passar mais e mais rápido na medida que se passam os anos.
O envelhecimento, sinônimo de alienação e de perda de poder sobre sua vida, corresponde ao tempo de abandono de todas as referências cronológicas em benefício do refúgio em uma idade desligada da realidade do tempo que passa. É por isto que a velhice é um sentimento subjetivo. Este sentimento que pode atingir uma pessoa de 60, como 95 anos, mas também permanecer totalmente estranha a um indivíduo de 90 anos, o qual irá tender a considerar a maior parte das pessoas com 80 anos, como mais velhas que ela (Helson 2008).

2.1.2-Qualidade de vida no envelhecimento

Na Gerontologia a aplicação da intervenção gerontológica pode ser considerada como o resultado dos conhecimentos obtidos pelos estudos e pesquisas comprovadas pela ciência do envelhecimento. Aponta para as múltiplas possibilidades de uso do desenvolvimento de resultados de pesquisas aplicados a aspectos relevantes da individualidade e da plasticidade dos indivíduos idosos, tanto no âmbito físico, psíquico e social (Wahl, Tesch-Römer & Ziegelman, 2012).
A qualidade de vida individual é o resultado de um conjunto de recursos ligados a condição de saúde física, psíquica, de interação social e ambiental que pode estar disponível ao longo do curso de vida. Estas condições são particularmente relevantes no contexto de redução do potencial da efetividade destes recursos durante o processo de envelhecimento. A intervenção gerontológica orientada sobre a baixa disponibilidade destes recursos pode resultar na sua recomposição, na otimização, na realocação de recursos que se fragilizaram ou que não estavam disponíveis previamente. Deve ter em vista, não apenas a reposição e ganhos na funcionalidade dos recursos de saúde individuais, mas também na realocação de recursos ambientais para a manutenção da qualidade de vida. Em diversos campos os recursos de suporte da qualidade de vida podem assumir funções compensatórias, cujo potencial repousa em parte sobre a sua disponibilidade individual prévia. As intervenções orientadas sobre o potencial dos recursos individuais devem sobretudo procurar a sua aptidão para compensação e dentro de uma estratégia preventiva. Isto é particularmente importante na fase inicial do processo de envelhecimento, e que tem uma relevância central nos campos de recursos sócio demográficos, da cognição, da saúde corporal, e do comportamento social. É uma estratégia que tem em mente as futuras perdas que se correlacionam com o curso de vida e pode assegurar a estabilidade e a própria qualidade de vida individual nas fases mais avançadas do processo de envelhecimento. Dentro do foco preventivo da intervenção gerontológica sobre a base de recursos que dão sustentação ao envelhecimento, cabe ainda considerar a necessidade de que seja reforçada a infraestrutura do contexto ambiental onde o indivíduo vivencia o processo de envelhecimento (Röcke & Martin 2012).

2.1.3-Recursos individuais

O conceito de recursos na literatura da Gerontopsicologia é bastante citado, mas mal definido. Adaptações gerais e teorias do stress focam recursos em relação a fatores de risco, como características de pessoas e do ambiente, as quais trazem dificuldades para o controle de condições de vida menos difíceis. Um grande número de características pessoais, genéticas, psicossociais, socioeconômicas, características motoras, cognitivas e sensoriais (comportamento, nível de formação educacional) bem como contextos de vida, junto com sua estrutura de oportunidades (tempo livre, infraestrutura de apoio na comunidade residencial) são incluídos no conceito de recursos.
Quando abordamos aspectos genéticos, nem sempre é fácil traçarmos uma linha de separação entre o que é genético e o que é hereditário. Quando falamos em genes, pensamos em herança direta de características bem definidas. Entretanto não são apenas as características externas que são determinadas pela expressão de genes. Todos os eventos que desencadeiam a formação de um ser com formas definidas, cujas partes possuem função definida, são determinadas por genes ou baterias de genes. Mutações em tais genes podem ser dramáticas para o organismo, como no caso do desenvolvimento do câncer ou também no caso de ocorrer uma transmissão de herança genética da diabete mellitus.
O papel da genética no envelhecimento é complexo, isto porque a herdabilidade é muito baixa, e diferentes genes podem responder a diversos estímulos ambientais, que quando somados, podem determinar maior ou menor tempo de vida, e diferentes genes podem responder a diversos estímulos ambientais, que podem influenciar o tempo de vida (Cruz, 2002).
Da mesma forma, mesmo quando são separados, os recursos pessoais como cognição, saúde corporal, comportamento social, são percebidas ainda habilidades auto reguladoras (estilo de realização) e o contexto de vida (tipo de moradia), as quais são também computados como recursos. Uma determinada função ou microssistema de vida pode também estar contida dentro da perspectiva de recursos, e as possibilidades de um dia a dia autônomo, independente, através de uma boa condição de saúde é um recurso central para o bem-estar subjetivo.
A possibilidade de se manipular a disponibilidade e a qualidade dos recursos individuais oferece um campo importante para intervenções gerontológicas que dirigem seu foco para elementos positivos de desenvolvimento. Recursos disponibilizam ferramentas de manejo para suporte da vida de idosos e definem o campo de operações para intervenções. Pessoas com muitos recursos alcançam, via de regra, um maior nível de bem-estar e uma maior qualidade de vida, do que pessoas com baixa disponibilidade de recursos.
As intervenções na base de recursos de pessoas idosas objetivam a descrição das características do estado de seus recursos e a definição de quais medidas podem ser aplicadas que conduzam a um desenvolvimento exitoso no sentido da maximização de ganhos e a minimização de perdas. Visam o manejo das modificações destes recursos com o sentido de prescrever uma melhor possibilidade de adaptação às modificações e de condução do modo de vida. A prescrição é para orientar a adoção de estratégias para adequado suporte da vida no sentido da melhor alocação de recursos. Tem um papel importante nas intervenções em campos funcionais específicos como diferenças cognitivas, sensoriais e motoras e para modelos de auto regulação emocional.
Um pressuposto fundamental da psicologia do alongamento de vida é que no desenvolvimento do curso de vida ocorrem tanto ganhos como perdas, e que o balanço, com base nas modificações dos recursos, indica que estes podem ser modificados e reforçados para favorecer a saúde a adiar perdas de funcionalidades. O adiamento de perdas produz um necessário reforço do suporte da vida pela redistribuição dos recursos em diferentes âmbitos que favorecem atividades diárias.
O Modelo de Otimização Seletiva com Compensação – SOC, de Baltes & Baltes (1990), citado por Röcke & Martin (2012) por exemplo, é orientado tanto para recursos como a processo. Descreve estratégias exitosas de suporte a vida orientadas sobre modificações do contexto individual. Pode ser, por exemplo, com foco na baixa disponibilidade de determinado recurso (seleção). Pode propor intervenções em recursos já existentes com objetivo em sua melhora (otimização). Pode focar na manutenção do nível funcional de determinado recurso (até então não visado), para compensar o desgaste de outro recurso já em fase de fragilização (compensação).
Diversas características intrínsecas e externas contribuem para o conjunto dos recursos individuais que atuam no desenvolvimento de uma vida prolongada. São parte integrante dos recursos que podem ser considerados como meios positivos de ajuda no desenvolvimento do envelhecimento, mas também como fatores de risco.
Estão correlacionados ao envelhecimento como aptidões para compensar desgastes e possibilitar compensações de perdas funcionais e manutenção da qualidade de vida.
Os recursos individuais colocam-se como ponto de partida para a intervenção gerontológica, que está focada na manutenção, restauração de recursos pessoais, bem como na adequação de características ambientais que cercam o indivíduo. Diferenças individuais no percurso da fase de envelhecimento, nos campos centrais da saúde corporal, cognição, bem-estar, refletem diferentes formas de ajuste dos indivíduos, entre a própria demanda de recursos e sua disponibilidade.
O “Modelo de Pilares Múltiplos que Afetam a Qualidade de Vida” pode ser usado como critério para a orientação de intervenções gerontológicas pessoais. Segundo este modelo as intervenções gerontológicas podem ser direcionadas para a manutenção da qualidade de vida com a ajuda de processos de compensação entre os diferentes recursos disponíveis, de forma que, sua redução, ou perda de algum deles, não leve necessariamente a uma minimização da qualidade de vida (Figura 1).

6-Saúde corporal; 2-Cognição; 4-Relacionamento social; 3-Recursos financeiros;
5-Ambiente residencial; 1-Infra-estrutura

 

São exemplos de intervenção para melhora da qualidade de vida individual:
Por Seleção:
Se o Recurso 1 for infraestrutura deficiente na área de moradia, como transporte precário, distância dos serviços de saúde, vizinhança perigosa, este recurso poderia ser selecionado como sendo o objetivo de ser alterado prioritariamente, efetuando-se a mudança para um novo local de moradia em local mais apropriado.
Por Otimização:
Se o Recurso 2 for Cognição, este pilar da qualidade de vida no envelhecimento pode ser otimizado, buscando-se participar de novos treinamentos e capacitações que reforcem a atividade cerebral (curso de línguas, informática, treinamento da memória), e com isto, reforçando este pilar do bem-estar individual.
Por compensação:
Se o recurso 6 for Saúde corporal, estiver afetado por perdas funcionais e fragilizando a mobilidade da pessoa idosa, esta poderá compensar estas perdas por reforçar o ambiente residencial (recurso 5) ajustando-se a uma nova realidade, pela redução do mobiliário para favorecer o transito entre dependências, adequação das portas ao deslocamento por cadeira de rodas, etc.
A perda de familiares ou pessoas amigas, que fragilizam o Recurso do relacionamento social (Pilar 4), deve também desencadear a busca pelo estabelecimento de uma nova rede de relacionamentos sociais, que atuem de forma compensatória, o que também pode resultar de esforços no reforço do pilar 2 relacionado atividades participativas em grupos de capacitação.

2.1.4-Intervenção gerontológica orientada a recursos

Os recursos individuais, colocam-se, ao lado de outros fatores contextuais e objetivos pessoais, como um ponto central de abordagem para a intervenção gerontológica. As diferentes características internas e externas de cada pessoa, comportam a maior parte das abordagens da intervenção gerontológica orientada a recursos. Todas estas abordagens têm em comum a característica de se orientarem aos objetivos de: regulação de perdas; uma maior efetividade de recursos que podem ser modificados em idades avançadas; a maximização de ganhos; e ao mesmo tempo, a minimização de perdas de recursos funcionais.
Intervenções orientadas a recursos podem ser diferenciadas, de um modo geral, sob o seu ponto de abordagem. Podem ter o objetivo de equilibrar perdas pela reconstrução doe recursos, pela prevenção do desgaste de recursos, ou pelo reforço do nível de determinado recurso. Quando um recurso sofre modificações ou perdas causadas pelo envelhecimento, existe um grande conjunto de possibilidades de aplicação de resultados do aprendizado sobre o potencial de plasticidade do indivíduo. Ganhos de recursos são, por exemplo, obtidos por treinamento da memória, pela concretização de novos contatos sociais, assumir novas atividades de uso do tempo livre, melhorias no tratamento e manutenção da saúde.
Intervenções que visam recursos disponíveis no ambiente externo ao indivíduo também podem ser incluídas neste contexto. Contextos de vida externos podem conter diferentes campos sociais, culturais, características de infraestrutura locais, os quais, no sentido de possibilidades de intervenção, atuam como compensação para perdas internas de recursos pessoais, como mobilidade, saúde e comportamentos sociais (pontos de encontro de idosos, sistema de transporte, vizinhança, etc.).
A alocação ótima de recursos já existentes pode ainda ser considerada uma estratégia para reforço de demandas individuais. É exemplar o Modelo de Pilares Múltiplos de Sustentação da Qualidade de Vida (Figura 1), que tem por foco o princípio do equilíbrio, composição, ajuste de perdas de recursos, através de uma reconstrução ou um reforço preventivo. O foco central é a busca da manutenção dos pilares de sustentação da qualidade de vida e não necessariamente a sua elevação. O ponto de partida é o conjunto de recursos que estão disponíveis e que são bastante distintos entre os indivíduos.
Uma característica do modelo é que o reforço de recursos individuais após uma perda pode levar a estabilização da qualidade de vida e não, automaticamente, a uma
melhora da qualidade de vida. O modelo sugere intervenções que tem por foco assumir funções compensatórias em pilares com recursos fragilizados. Como exemplo, em perdas funcionais de saúde, pode um reforço no pilar de recursos sociais levar a uma estabilização da qualidade de vida. O modelo também indica que, a possibilidade de reforço em determinados pilares de recursos possa ser efetuada preventivamente. Pode também, em uma fase posterior à perda de um determinado recurso, assumir uma função compensatória, pelo reforço em outros pilares de sustentação da qualidade de vida.
A disponibilidade de um maior conjunto de recursos oferece um maior leque de oportunidades de compensação. Estas abordagens são suportadas por teorias que consideram que, um maior número de facetas de características individuais oferece um maior campo de atuação para intervenções, que atuem na manutenção da vivência pessoal, mesmo quando haja a ocorrência de perdas significativas em determinados recursos (Röcke & Martin 2012).

2.1.5-Diagnóstico geriátrico

A intervenção gerontológica na esfera do indivíduo parte do princípio de que existe um diagnóstico geriátrico que caracteriza o estado físico e psíquico do idoso. O Diagnóstico Geriátrico pode ser descrito como a “medicina multifuncional, psicológica e de análise”, com o objetivo de se estabelecer um plano de longo prazo para o tratamento e cuidados do indivíduo idoso. Em um diagnóstico padronizado, aspectos cognitivos, status emocional, mobilidade, funções orgânicas, autossuficiência na condução do dia a dia e aspectos ambientais do entorno do indivíduo são sistematicamente caracterizados e incorporados aos cuidados e tratamento de idosos. Para diferentes Intervenções (prevenção, tratamento de doenças, reabilitação, tratamento de longa duração) é previsível que estas ações interagem na manutenção da funcionalidade, autossuficiência e redução de tratamento em hospitais e da internação em instituições de longa permanência.
Primeiro Passo:
O tratamento médico e o cuidado ao idoso é resultante de um diagnóstico geriátrico que avalia diversos aspectos fundamentais, podendo ser nominados:
1-Multimorbidade e complexidade
Muitas pessoas idosas sofrem simultaneamente danos por diversas doenças e com um método de avaliação multidimensional é possível estabelecer prioridades de intervenção.
2-Problemas desconhecidos
Muitas pessoas sofrem doenças desconhecidas e problemas que podem ser potencialmente modificáveis. Com isto podem ser interpretadas como consequência normal do envelhecimento, como restrições das funções cognitivas, auditivas e da visão.
3-Enfermidades crônicas
O tratamento de doenças crônicas visa atuar sobre a minimização de seus efeitos sobre a vida quotidiana. Ao lado do tratamento medicinal também é necessária uma avaliação funcional com base no diagnóstico geriátrico.
4-Interação com fatores sociais e ambientais
Condições de saúde do dia a dia são influenciadas pelos recursos sociais como a rede social e situação do ambiente residencial da moradia.
5-Exames laboratoriais.
Um diagnóstico geriátrico inclui inicialmente dados de um exame minucioso de resultados de análises laboratoriais.
Segundo Passo
Os dados do primeiro passo são complementados por verificação de aspectos funcionais do indivíduo, que são considerados o segundo passo do diagnóstico, e compreende:
1-Função afetiva
Uma avaliação sistemática de ocorrência de depressão. Um questionamento direcionado a depressão é oportuno, porque mesmo sintomas leves de depressão podem sugerir uma terapia combinada, medicamentosa e psicossocial.
2-Atividade diária
A avaliação da autonomia do dia a dia é um elemento central do diagnóstico por poder captar possíveis influências de doenças crônicas de funções que influenciam no contexto físico e social. O status funcional pode ser avaliado através de: 1- condução de atividades diárias como: nutrição, higiene, trato corporal, uso das instalações sanitárias, movimentação. 2- Desempenho de funções diárias como realização de compras, manuseio de roupas, preparo de refeições, uso de medicamentos, controle financeiro e quitação de contas. 3 – Cumprimento de agendas em atividades sociais, profissionais, esporte e viagens.
3-Cognição
Um teste mental mínimo compreende a identificação e controle da evolução da demência no envelhecimento e deve despertar precocemente a sensibilidade para uma avaliação neuropsicológica completa.
4-Mobilidade e quedas
Devem ser realizados testes para avaliar a mobilidade e a insegurança no deslocamento que são precursoras de quedas.
5-Saúde bucal
Tanto do ponto de vista funcional como estético o aspecto dentário tem um significado especial no envelhecimento e inclui o apoio de serviços odontológicos. Através de métodos atuais preventivos e de reabilitação é possível manter uma saúde bucal até estágios avançados do envelhecimento.
6-Dores
Sem considerar um órgão específico é importante a caracterização da dor. Nela não é somente considerada a intensidade da dor, mas também a sua influência sobre a autonomia, mobilidade, contatos sociais.
7-Audição e visão
A capacidade auditiva e visual é avaliada por testes objetivos com relação a sua funcionalidade em diferentes estágios do envelhecimento e avaliação de deficiências e formas de reabilitação podem ser conduzidas precocemente.
8-Avaliação social
Pressupõe uma descrição da rede de suporte social, o que pode ser realizada por um questionário simples, o qual pode revelar risco de isolamento e necessidade de medidas de integração social.
9-Vizinhança
A condição da área do entorno residencial é frequentemente pouco analisada, mas é de importância central no diagnóstico e aconselhamento. Uma visita a
residência permite avaliar qual o itinerário utilizado para deslocamentos no espaço próximo e se este apresenta condições favoráveis ao indivíduo idoso.
As evidências indicam que a aplicação do Diagnóstico Geriátrico tem um resultado relevante, de forma que são caracterizadas prioridades individuais e que possam ser aplicados planos de tratamento pessoais eficientes, seja na prevenção, na reabilitação, no tratamento hospitalar ou o caso de internação em instituições de longa permanência (Stuck, 2012).

2.1.6-A intervenção pela terapia Genética

Surgido nos laboratórios em 2012, uma ferramenta molecular genética (CRISPR-Cas9) está, a partir de agora, a fazer história. CRISPR-Cas9 agrupa o nome de uma grande proteína (Cas9) a um acrônimo – CRISPR – (palavra formada pela inicial, ou por mais de uma letra de cada um dos segmentos sucessivos de uma locução, ou pela maioria destas partes, ex. ONU).
CRISPR em inglês “Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats”, significa “curtas sequências palindrômicas repetidas, agrupadas e regularmente espaçadas”. Palíndromo significa palavra que pode ser lida, indiferentemente, da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda.
Em três anos apenas, CRISPR-Cas9 ganhou a fama de revolução. Trata-se de uma ferramenta de “edição genética”, que funciona de modo similar ao algoritmo de tratamento de texto (tipo word), e permite editar qualquer texto através de toques como procurar, copiar, colar, etc.
Isto é o que exatamente pode fazer o CRISPR-Cas9, mas transportado à genética, atuando sobre o DNA, que no caso da espécie humana possui mais de 3 milhões de letras. É uma ferramenta que permite aos cientistas inserir ou suprimir pedaços de DNA com uma precisão incrível e realizar coisas impossíveis, afirmam as pesquisadoras Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier do Institut Max-Plank, Alemanha (Science & Vie, nº 1180, pg. 44, janvier 2016). Tais possibilidades foram já testadas com bactérias, plantas, leveduras, mamíferos e agora, sobre humanos.
O DNA – Ácido Desoxirribonucleico é um composto orgânico cujas moléculas contém as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos e alguns vírus, e que transmitem as características hereditárias de cada ser vivo.
O seu principal papel é armazenar as informações necessárias para a construção das proteínas de ARN’s. Os segmentos de DNA que contém a informação genética são denominados genes. Do ponto de vista químico, o DNA é um longo polímero de unidades simples (nanômeros) de nucleotídeos, cuja cadeia principal é formada por moléculas de açúcar e fosfato, intercaladas, unidas por ligações fosfodiester. Ligada a molécula de açúcar está uma das quatro bases nitrogenadas. A sequência de bases ao longo da molécula de DNA constitui a informação genética. Dentro da célula, o DNA pode ser observado em uma estrutura chamada cromossoma durante a metáfase. Antes da divisão celular os cromossomas são duplicados por um processo de replicação. https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81cido_desoxirribonucleico
Otimizar os genes.
Nada pode ser feito em relação ao que a natureza nos tem dado? Não se contentar com a grande loteria genética, que dota cada um de um patrimônio único,
herdado de nossos parentes e seres ancestrais? Quem nunca sonhou em poder um dia refazer suas próprias características genéticas para se tornar mais inteligente, belo, permanecer jovem por mais tempo? Algum reforço tem sido feito através da cirurgia e uso de fármacos, que oferecem pontualmente alguns efeitos corporais e cognitivos.
Editar o genoma de um adulto.
E se for possível fazer modificações de fundo no DNA? Apropriar-se definitivamente de boas bases genéticas e as integrar a alguns de nossos órgãos? Esta é a perspectiva que abre o CRISPR-Cas9, poder retocar as capacidades psíquicas e intelectuais no seio do texto genético presente em cada um de nossas células. A maior parte das pessoas apresenta genes funcionais, mas não forçosamente sua versão mais eficiente e eficaz. Uma constatação, que abre enormes perspectivas de otimização. Editar o genoma de um adulto, seria então simplesmente apelar para o uso de técnicas disponibilizadas pela terapia genética, através de transportadores microscópicos, capazes de entregar o gene de interesse, integrando-o nas populações de células visadas.
O pesquisador, George Church, que desenvolve estudos com diversos grupos humanos, estuda o patrimônio genético da longevidade de centenários para descobrir os segredos de uma juventude que possa ser durável. Levantou uma lista de 10 versões raras de genes com efeitos positivos, dos quais seis aumentam a resistência a doenças cardiovasculares (PCSK9), aos cânceres (GHR), a diabete (SLC30A8; IFIH1), a Alzheimer (APP), ou aos vírus (CCRS; FUT2).
As possibilidades de correção e a facilidade de utilização do CRISPR-Cas9 pode também relacionar-se a outros tipos de genes como: SCN9A, que reduz a sensibilidade a dor; LRPS que confere uma ossatura mais densa; MSTN uma musculatura mais robusta; EPO, que favorece a produção de glóbulos vermelhos no sangue. Todos já vem sendo estudados por razões médicas.
Dezenas de laboratórios estão convencidos de que o CRISPR-Cas9 será uma possibilidade definitiva de tratar doenças genéticas, câncer, aids, e mesmo corrigir o patrimônio genético de toda a descendência. Com esta ferramenta revolucionária os médicos esperam, de fato, ter sucesso em realizar uma cirurgia reparadora do DNA (Abdoun, Rauscher, Sciama & Tourbe, 2016).
CRISPR-Cas9, uma revolução que traz medo.Pelo fato de que se torna incrivelmente fácil qualquer manipulação de seres vivos, CRISPR-Cas9 coloca a questão de saber quem vai utilizar, com qual objetivo, com quais fins? Desde já, se impõe uma moratória sobre este avanço científico, que é portador de grande inquietude. Paradoxalmente, de todos os riscos trazidos pelo CRISPR-Cas9, a produção de embriões “sobre medida” é um dos melhores exemplos da “edição genética de embriões”, cujos efeitos posteriores sobre o adulto e sua geração são imprevisíveis. A espécie humana não é evidentemente a única afetada por intervenção genética conduzidas pelo CRISPR-Cas9. Pode atuar, como no caso do interesse agrícola, dotando outras espécies de animais, plantas, microrganismos de supergenes.
A multiplicação destes projetos coloca a questão do “Business do ser vivo”, que permite o setor privado investir na biologia, eldorado financeiro do futuro. Ocorre também o problema da “biologia de garagem”, tocado por um conjunto de equipes não oficiais que realizam manipulações fora dos laboratórios. Pode ser imaginada, toda a sorte de experiências, de mais geniais às mais tóxicas, segundo a identidade e
motivação dos experimentadores. Existe ainda o risco de bioterrorismo, no qual a fabricação de microrganismos artificiais, “supermicrobios”. Estes, podem constituir uma armada de agentes perigosos. Tornar-se uma ameaça biológica que, potencialmente, poderá pertencer a seitas ou pequenos grupos de indivíduos mal-intencionados (Abdoun et al 2016).

2.1.6-Fontes de consulta

ABDOUN,E, RAUSCHER,E, Y,SCIAMA & C,TOURBE, Bricoleurs du Vivant. Science & Vie, Nº 1.180, Mondadori France, Janvier 2016.

CRUZ,I,B,M, da. Alguns questionamentos biológicos sobre o envelhecimento e morte: Da levedura ao homem. In: Jeckel Neto, E,A. Aspectos biológicos e geriátricos do Envelhecimento, 2ª. Ed, Porto Alegre, EDIPUCRS, 2002.

HELSON,C. Accompagner le grand âge – Psycho-gérontologie pratique, Paris,Dunod, 2008.

RÖCKE,C & MARTIN,M, Ressourcen, In: Wahl,H,W, Römer, T,C & Ziegelmann,J,P, Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

STUCK,A,E, Geriatrisches Assessment, In: Wahl,H,W, Römer,C,T & Ziegelmann,J,P, Angewandte Gerontologie, Stuttgart, Kohlhammer, 2012.

WAHL,H,W, RÖMER,C,T & ZIEGELMANN,J,P, Angewandte Gerontologie, Stuttgart Kohlhammer, 2012
https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81cido_desoxirribonucleico


Sobre o autor:

Nelson Frederico Seiffert

Doutor em Engenharia de Produção, com a tese de Doutorado sobre Gestão Ambiental. Trabalhou em Pesquisa na EMBRAPA durante 25 anos.

Desenvolve atualmente estudos na área de Gerontologia Ambiental e Aplicada. Conduziu Seminários sobre Gerontologia Ambiental e Aplicada no NETI/UFSC em 2015, 2016 e é Diretor Técnico Científico da ANG/SC – GESTÃO 2017/2019.

E-mail: [email protected]

 

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